Chega uma ressonância de joelho com uma massa periarticular. Há erosão óssea adjacente. Há edema de partes moles. O pedido diz “investigar lesão expansiva”. O caminho fácil é escrever “lesão de natureza indeterminada, sugere-se correlação histopatológica” — e o paciente entra numa fila de biópsia.
Em muitos desses casos, a resposta estava no T2.
A gota é comum, e a ressonância é onde ela engana
A gota é a artropatia por cristais mais frequente. O que a torna um problema de imagem não é a raridade — é que os achados de ressonância se parecem com tudo o que assusta. Massa de partes moles, erosão, realce, edema: o pacote inteiro do que faz um radiologista pensar em neoplasia ou infecção.
O sinal que separa
O tofo é um aglomerado de cristais de urato monossódico com reação inflamatória crônica ao redor. Na ressonância ele tem sinal baixo a intermediário em T1 — o que não ajuda muito — e sinal heterogêneo, frequentemente baixo, em T2.
Esse é o dado que muda tudo. A intuição treinada diz que lesão inflamatória e lesão tumoral são claras em sequências líquido-sensíveis, porque têm água. Quando o T2 vem escuro numa lesão periarticular, a lista de possibilidades encolhe muito: cristal, hemossiderina, amiloide, fibrose densa.
O realce ajuda a confirmar: no tofo ele costuma ser irregular e periférico, não sólido e homogêneo como numa massa neoplásica.
As erosões também têm assinatura
A erosão da gota não é qualquer erosão. Ela tende a ter esclerose na margem e uma borda óssea saliente — o osso reage ao depósito de crescimento lento, em vez de simplesmente ser consumido. Compare com a erosão da artrite reumatoide, que é de margem mal definida e sem esclerose.
Some a isso a distribuição. No joelho, olhe o tendão quadricipital, o patelar, a sinóvia e as margens articulares. E não descarte a hipótese porque o local é atípico: já foram publicados 131 casos de gota na coluna, e a prevalência real provavelmente é maior do que se imagina.
Os diferenciais que ficam de pé
- Tumor de células gigantes tenossinovial / SVNPTambém com sinal baixo em T2, mas por hemossiderina — com artefato de suscetibilidade no gradiente-eco.
- AmiloidoseDepósito de sinal baixo, em contexto de doença renal crônica e diálise.
- Artrite sépticaColeção com realce periférico e contexto clínico agudo.
- Sarcoma de partes molesSinal alto em T2, massa com realce sólido.
- Artrite reumatoideErosões sem esclerose de margem e sem borda saliente; distribuição diferente.
O que a ressonância não faz
Aqui está o limite que precisa estar no laudo: a ressonância é sensível para as alterações ósseas e de partes moles da gota, mas os achados não são específicos. Ela levanta a hipótese; não a fecha.
Quem fecha são outros dois métodos. A ultrassonografia mostra o depósito ecogênico, o sinal do duplo contorno sobre a cartilagem, o tofo e as erosões adjacentes — é barata, disponível e resolve na hora. A TC de dupla energia identifica e quantifica os depósitos de urato com alta sensibilidade e especificidade, em articulações, tendões e partes moles.
Uma revisão sistemática de instrumentos de medida de tofo mostrou que ultrassonografia e TC de dupla energia têm excelente confiabilidade e respondem ao tratamento — com a ressalva prática de custo e curva de treinamento maiores.
Vale ainda um lembrete clínico: o ácido úrico sérico pode estar normal durante a crise. Uricemia normal não exclui gota.
- Ler sinal baixo em T2 como “fibrose” ou “cicatriz” e ignorar. Em contexto periarticular com erosão, pense em cristal.
- Sugerir biópsia de tofo. Antes disso, uma ultrassonografia ou uma TC de dupla energia resolvem.
- Chamar de tumor por causa do realce. O realce do tofo é irregular e periférico, não sólido homogêneo.
O que levar para a prática
- Olhe o comportamento em T2 antes de compor a lista de diferenciais.
- Sinal baixo em contexto periarticular: pense cristal, hemossiderina, amiloide.
- Procure erosão com esclerose marginal e borda saliente.
- Cheque os sítios de predileção — no joelho, os tendões extensores.
- Escreva a hipótese e sugira o método que a confirma: ultrassonografia ou TC de dupla energia.
No laudo, descrever
- Localização e extensão dos depósitos.
- Erosões: presença de esclerose marginal e borda saliente.
- Acometimento tendíneo — quadricipital, patelar.
- Sugestão explícita de US ou TC de dupla energia quando a hipótese estiver em jogo.
O laudo que sugere “correlação histopatológica” é o laudo que manda o paciente para a agulha. O laudo que sugere um ultrassom é o que resolve no mesmo dia.
Referências
- Girish G, Glazebrook KN, Jacobson JA. Advanced imaging in gout. AJR Am J Roentgenol. 2013;201(3):515-25. PMID 23971443 · DOI
- Murdoch R, Pearcy Q, Schauer C, Dalbeth N. Tophus measurement as an outcome measure in gout: an updated systematic literature review. Semin Arthritis Rheum. 2026;79:153000. PMID 42190485 · DOI
- Toprover M, Krasnokutsky S, Pillinger MH. Gout in the Spine: Imaging, Diagnosis, and Outcomes. Curr Rheumatol Rep. 2015;17(12):70. PMID 26490179 · DOI




