Radiologia MSK — André Yui Aihara
Joelho · 07.09.2026
Gota — tofo gotoso Joelho RM R3 e acima

Quando o baixo sinal em T2 salva o paciente de uma biópsia

A gota é uma das grandes imitadoras da ressonância musculoesquelética. O sinal que a denuncia é justamente o que a maioria ignora.

Chega uma ressonância de joelho com uma massa periarticular. Há erosão óssea adjacente. Há edema de partes moles. O pedido diz “investigar lesão expansiva”. O caminho fácil é escrever “lesão de natureza indeterminada, sugere-se correlação histopatológica” — e o paciente entra numa fila de biópsia.

Em muitos desses casos, a resposta estava no T2.

A gota é comum, e a ressonância é onde ela engana

A gota é a artropatia por cristais mais frequente. O que a torna um problema de imagem não é a raridade — é que os achados de ressonância se parecem com tudo o que assusta. Massa de partes moles, erosão, realce, edema: o pacote inteiro do que faz um radiologista pensar em neoplasia ou infecção.

O sinal que separa

O tofo é um aglomerado de cristais de urato monossódico com reação inflamatória crônica ao redor. Na ressonância ele tem sinal baixo a intermediário em T1 — o que não ajuda muito — e sinal heterogêneo, frequentemente baixo, em T2.

Esse é o dado que muda tudo. A intuição treinada diz que lesão inflamatória e lesão tumoral são claras em sequências líquido-sensíveis, porque têm água. Quando o T2 vem escuro numa lesão periarticular, a lista de possibilidades encolhe muito: cristal, hemossiderina, amiloide, fibrose densa.

O realce ajuda a confirmar: no tofo ele costuma ser irregular e periférico, não sólido e homogêneo como numa massa neoplásica.

Imagens do caso Joelho · RM e RX
RM do joelho, sagital com supressão de gordura: material de sinal intermediário a baixo junto ao corno anterior do menisco medial, com erosão óssea adjacente
RM do joelho, sagital em T1: o mesmo material junto ao corno anterior do menisco medial, com erosão óssea
RM do joelho, axial com supressão de gordura: material de sinal intermediário a baixo junto à origem femoral do tendão poplíteo
RM do joelho, coronal em T1: o mesmo material junto à origem femoral do tendão poplíteo
Radiografia do joelho direito, frontal com carga: material hiperdenso junto à origem femoral do tendão poplíteo

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As erosões também têm assinatura

A erosão da gota não é qualquer erosão. Ela tende a ter esclerose na margem e uma borda óssea saliente — o osso reage ao depósito de crescimento lento, em vez de simplesmente ser consumido. Compare com a erosão da artrite reumatoide, que é de margem mal definida e sem esclerose.

Some a isso a distribuição. No joelho, olhe o tendão quadricipital, o patelar, a sinóvia e as margens articulares. E não descarte a hipótese porque o local é atípico: já foram publicados 131 casos de gota na coluna, e a prevalência real provavelmente é maior do que se imagina.

Os diferenciais que ficam de pé

  • Tumor de células gigantes tenossinovial / SVNPTambém com sinal baixo em T2, mas por hemossiderina — com artefato de suscetibilidade no gradiente-eco.
  • AmiloidoseDepósito de sinal baixo, em contexto de doença renal crônica e diálise.
  • Artrite sépticaColeção com realce periférico e contexto clínico agudo.
  • Sarcoma de partes molesSinal alto em T2, massa com realce sólido.
  • Artrite reumatoideErosões sem esclerose de margem e sem borda saliente; distribuição diferente.

O que a ressonância não faz

Aqui está o limite que precisa estar no laudo: a ressonância é sensível para as alterações ósseas e de partes moles da gota, mas os achados não são específicos. Ela levanta a hipótese; não a fecha.

Quem fecha são outros dois métodos. A ultrassonografia mostra o depósito ecogênico, o sinal do duplo contorno sobre a cartilagem, o tofo e as erosões adjacentes — é barata, disponível e resolve na hora. A TC de dupla energia identifica e quantifica os depósitos de urato com alta sensibilidade e especificidade, em articulações, tendões e partes moles.

Uma revisão sistemática de instrumentos de medida de tofo mostrou que ultrassonografia e TC de dupla energia têm excelente confiabilidade e respondem ao tratamento — com a ressalva prática de custo e curva de treinamento maiores.

Vale ainda um lembrete clínico: o ácido úrico sérico pode estar normal durante a crise. Uricemia normal não exclui gota.

Pitfalls
  1. Ler sinal baixo em T2 como “fibrose” ou “cicatriz” e ignorar. Em contexto periarticular com erosão, pense em cristal.
  2. Sugerir biópsia de tofo. Antes disso, uma ultrassonografia ou uma TC de dupla energia resolvem.
  3. Chamar de tumor por causa do realce. O realce do tofo é irregular e periférico, não sólido homogêneo.

O que levar para a prática

  1. Olhe o comportamento em T2 antes de compor a lista de diferenciais.
  2. Sinal baixo em contexto periarticular: pense cristal, hemossiderina, amiloide.
  3. Procure erosão com esclerose marginal e borda saliente.
  4. Cheque os sítios de predileção — no joelho, os tendões extensores.
  5. Escreva a hipótese e sugira o método que a confirma: ultrassonografia ou TC de dupla energia.

No laudo, descrever

  • Localização e extensão dos depósitos.
  • Erosões: presença de esclerose marginal e borda saliente.
  • Acometimento tendíneo — quadricipital, patelar.
  • Sugestão explícita de US ou TC de dupla energia quando a hipótese estiver em jogo.

O laudo que sugere “correlação histopatológica” é o laudo que manda o paciente para a agulha. O laudo que sugere um ultrassom é o que resolve no mesmo dia.

Referências

  1. Girish G, Glazebrook KN, Jacobson JA. Advanced imaging in gout. AJR Am J Roentgenol. 2013;201(3):515-25. PMID 23971443 · DOI
  2. Murdoch R, Pearcy Q, Schauer C, Dalbeth N. Tophus measurement as an outcome measure in gout: an updated systematic literature review. Semin Arthritis Rheum. 2026;79:153000. PMID 42190485 · DOI
  3. Toprover M, Krasnokutsky S, Pillinger MH. Gout in the Spine: Imaging, Diagnosis, and Outcomes. Curr Rheumatol Rep. 2015;17(12):70. PMID 26490179 · DOI