Dor no calcâneo ao apoiar o pé na primeira pisada da manhã, que melhora depois de alguns passos e volta ao fim do dia. Palpação dolorosa no tubérculo medial do calcâneo. Teste do molinete positivo.
O diagnóstico já está feito, e foi feito no consultório. A fasciíte plantar é a causa mais comum de dor plantar no calcâneo e é reconhecida pela história e pelo exame físico. A imagem é seletiva — radiografia, ultrassonografia ou ressonância — e entra para confirmar quando há dúvida e para afastar diferenciais como síndrome do túnel do tarso e fratura de estresse do calcâneo.
Isso reposiciona o papel do radiologista de um jeito que vale explicitar: não somos quem faz o diagnóstico; somos quem impede o erro.
O que a imagem realmente mostra
Uma revisão sistemática com metanálise reuniu 42 estudos e 2.928 participantes, comparando quem tem dor plantar no calcâneo com quem não tem. Os achados associados ao quadro foram: fáscia plantar espessada (ultrassonografia e ressonância), alteração do próprio tecido da fáscia, coxim gorduroso plantar mais espesso sob carga, e esporão calcâneo plantar na radiografia. Com evidência de mais de um estudo, também apareceram hiperemia intrafascial ao Doppler de amplitude e alterações ósseas do calcâneo, incluindo edema medular na ressonância.
Uma ressalva que os próprios autores fazem e que vale carregar: apenas 21% dos estudos foram classificados como de boa qualidade metodológica. É base suficiente para apoiar, não para substituir a clínica.
Imagens sagitais de RM T2 FS mostrando espessamento e alteração de sinal do segmento proximal da banda central da fáscia plantar, com edema ósseo e edema nas partes moles adjacentes, achados compatíveis com fasciíte plantar.
1 / 3
As três coisas que o laudo precisa procurar
1. A fratura de estresse do calcâneo. Este é o diferencial caro. Edema medular no calcâneo é achado esperado na fasciíte — e é exatamente por isso que a fratura se esconde ali. Diante de edema, vá ao T1 e procure a linha de baixo sinal perpendicular às trabéculas. O tratamento é outro, e o atleta que continua treinando com fratura de estresse não melhora.
2. O nervo de Baxter. O primeiro ramo do nervo plantar lateral pode ser comprimido entre o abdutor do hálux e o quadrado plantar, e a dor é praticamente indistinguível. O sinal na imagem é indireto e tardio: atrofia gordurosa do músculo abdutor do quinto dedo. É um músculo pequeno, no canto da imagem, que ninguém olha se não estiver procurando.
3. A rotura da fáscia. Descontinuidade das fibras muda a conduta imediatamente, porque contraindica infiltração de corticoide na região. Se estiver lá e não estiver no laudo, o paciente pode receber exatamente o tratamento que não deveria.
E o esporão?
O esporão calcâneo plantar se associa estatisticamente ao quadro — apareceu na metanálise. Mas ele também é comum em pessoas sem nenhum sintoma, e a tração que o forma não é o mesmo que a dor que o paciente sente. Atribuir o quadro ao esporão desloca a conversa para uma estrutura óssea quando o problema é da entese e do tecido ao redor.
Os diferenciais que ficam de pé
- Fratura de estresse do calcâneo Linha de baixo sinal em T1, perpendicular às trabéculas, dentro do edema. É o diferencial que mais custa caro se passar.
- Neuropatia do nervo de Baxter Atrofia gordurosa do abdutor do quinto dedo é o sinal tardio, e é fácil de perder se não for procurado.
- Rotura da fáscia plantar Descontinuidade das fibras, contexto agudo. Contraindica infiltração de corticoide.
- Fibromatose plantar (doença de Ledderhose) Nódulos na porção média da fáscia, não na origem.
- Espondiloartrite (entesite) Entesopatia calcânea bilateral com edema ósseo em paciente jovem: pense em contexto inflamatório sistêmico.
- Bursite retrocalcânea e tendinopatia do Aquiles Dor posterior, não plantar.
- Laudar “fasciíte plantar” e parar aí. O achado é comum; a pergunta é se há mais alguma coisa.
- Não procurar a linha de fratura de estresse no calcâneo com edema.
- Esquecer de olhar o abdutor do quinto dedo — a atrofia denuncia a neuropatia de Baxter.
- Valorizar o esporão calcâneo como causa. Ele se associa ao quadro, mas é achado frequente em assintomáticos.
- Não registrar rotura, que contraindica infiltração.
O que levar para a prática
- Meça a espessura da fáscia na origem e descreva o caráter do sinal.
- Diga se as fibras estão íntegras, com rotura parcial ou completa.
- Havendo edema medular no calcâneo, procure ativamente a linha de fratura no T1.
- Olhe o coxim gorduroso plantar.
- Cheque o trofismo do abdutor do quinto dedo.
No laudo, descrever
- Espessura da fáscia na origem e caráter do sinal.
- Integridade das fibras — íntegra, rotura parcial ou completa.
- Edema medular do calcâneo e, havendo edema, busca ativa de linha de fratura.
- Estado do coxim gorduroso plantar.
- Trofismo do abdutor do quinto dedo.
O laudo que diz só “fasciíte plantar” confirma o que o ortopedista já sabia. O que descreve esses cinco itens responde à pergunta que ele realmente fez.
Referências
- Drake C, Whittaker GA, Kaminski MR, Chen J, Keenan AM, Rathleff MS, Robinson P, Landorf KB. Medical imaging for plantar heel pain: a systematic review and meta-analysis. J Foot Ankle Res. 2022;15(1):4. PMID 35065676 · DOI
- Nweke TC. Comprehensive Review and Evidence-Based Treatment Framework for Optimizing Plantar Fasciitis Diagnosis and Management. Cureus. 2025;17(7):e88745. PMID 40717873 · DOI




Deixe uma resposta