

Terminologia. “Fratura de cartilagem esternocostal” pode indicar uma fratura da cartilagem costal próxima ao esterno ou uma ruptura da junção condroesternal. Vale localizar a lesão com precisão: ela pode estar na junção costocondral (costela–cartilagem), no corpo da cartilagem ou na junção condroesternal (cartilagem–esterno). Na última, pode haver separação ou luxação, mesmo sem uma linha de fratura no corpo cartilaginoso. Essa distinção deve aparecer no laudo. RadioGraphics
Por que procurar
A cartilagem é pouco visível na radiografia, de modo que uma lesão pode explicar dor paraesternal pós-traumática com RX aparentemente normal. Em uma revisão de 1.461 TC de corpo inteiro após trauma contuso, 114 pacientes (7,8%) tinham fraturas de cartilagem costal; entre os pacientes com lesão torácica, a proporção foi de 19,9%. Apenas 39,5% dos casos haviam sido mencionados nos laudos iniciais. São números de uma população de trauma, não uma estimativa para qualquer paciente com dor torácica. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
Um estudo multicêntrico de 2026, restrito a pacientes traumatizados com fraturas de costelas, encontrou lesão cartilaginosa em 197/1.441 (14%); 172/197 (87%) não haviam sido identificadas no laudo inicial. A taxa elevada de lesões omitidas reforça a necessidade de examinar deliberadamente a parede torácica anterior, mas o estudo não estabelece o impacto clínico de cada pequena lesão identificada. PubMed
Métodos de imagem e achados
| Método | O que procurar | Papel prático |
| Radiografia | Eventual desalinhamento ou alteração de cartilagem bastante calcificada | Uma radiografia normal não exclui a lesão. |
| TC | Fenda hipodensa atravessando a cartilagem, descontinuidade, angulação, degrau ou deslocamento; na junção condroesternal, perda do alinhamento com o esterno. Avaliar edema/hematoma adjacente. | Principal exame na avaliação do trauma torácico e das lesões associadas. Revisar cortes finos e reconstruções multiplanares em janela adequada para partes moles/cartilagem, além da janela óssea. |
| Ultrassonografia dirigida | Interrupção da superfície anterior ecogênica da cartilagem, degrau, hematoma e, se necessário, movimento focal à avaliação dinâmica | Útil para dor superficial bem localizada e para investigar instabilidade, conforme a acessibilidade da região. |
| RM dirigida | Linha de lesão e edema adjacente nas sequências sensíveis a líquido; avaliar também músculos e partes moles | Complementa a TC quando persiste suspeita clínica ou dor focal sem explicação convincente. O campo de visão deve abranger a junção sintomática, com planos ajustados à orientação da cartilagem. |
Os sinais na TC e na US foram descritos na série clássica de Malghem e colaboradores; uma pequena quantidade de gás na fenda pode ocorrer, e calcificações ao redor podem se desenvolver em lesões antigas. A RM tem evidência sobretudo de séries pequenas e revisões, sendo especialmente útil pela demonstração do edema. PubMed
Na leitura da TC: acompanhe a extremidade anterior de cada costela até o esterno ou arco costal. Se houver fratura esternal, múltiplas fraturas costais ou um segmento torácico instável, aumente a atenção às cartilagens e às junções condroesternais. Compare lados e use reconstruções alinhadas à estrutura suspeita; uma lesão discreta pode não ficar evidente em um único corte axial. Essa é uma estratégia de leitura derivada dos padrões de lesões omitidas, e não um critério diagnóstico validado. PubMed
Armadilhas e diagnósticos diferenciais
- Chamar toda lesão anterior de “fratura costal”. Especifique se o ponto de ruptura está no osso, na cartilagem ou na junção condroesternal.
- Interpretar uma junção anatômica como fenda traumática. Procure assimetria, deslocamento e alteração de partes moles e relacione o achado ao local da dor. Variações das costelas anteriores também podem simular trauma. RadioGraphics
- Usar calcificação como prova isolada de fratura recente. A cartilagem pode apresentar calcificação; no seguimento, calcificações junto a uma fratura conhecida podem fazer parte da reparação. A comparação com exames prévios ajuda. PubMed
- Descrever edema isolado na RM como fratura definida. Quando não se identifica descontinuidade ou desalinhamento, é mais preciso relatar lesão/contusão da região condroesternal e expressar o grau de suspeita conforme o contexto.
- Parar a busca após encontrar uma lesão. No trauma significativo, avalie as demais costelas, o esterno, a pleura e os órgãos subjacentes. A associação observada entre fratura cartilaginosa e outras lesões reflete populações de trauma e não prova que a fratura cartilaginosa as cause. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
O que incluir no laudo
Informe lado e número da costela, local exato (costocondral, intracartilaginoso ou condroesternal), deslocamento e direção, além de hematoma, outras fraturas e complicações torácicas quando presentes. Se houver ruptura condroesternal, prefira explicitá-la a usar apenas “fratura de cartilagem”.
Exemplo: “Ruptura da junção condroesternal da 4ª costela direita, com discreto deslocamento posterior da extremidade cartilaginosa e pequeno hematoma adjacente.”
Não encontrei, nas referências selecionadas, valor de corte universal de deslocamento ou classificação específica validada para graduar essas lesões na rotina. A descrição anatômica e das lesões associadas é mais útil do que atribuir um grau não padronizado.
Evolução e evidência
No seguimento multimodal de 21 pacientes após politrauma, TC e RM permitiram avaliar reparação, enquanto a US dinâmica ajudou a demonstrar instabilidade. A não consolidação foi incomum nessa pequena amostra; os autores não observaram diferença significativa de qualidade de vida entre os grupos com fratura radiologicamente consolidada e não consolidada. A amostra reduzida e a seleção dos participantes limitam generalizações sobre prognóstico e necessidade de exames de controle. Springer Nature Link
Pontos-chave para o radiologista
- Dor paraesternal após trauma com radiografia normal ainda pode decorrer de lesão cartilaginosa.
- Diferencie junção costocondral, corpo da cartilagem e junção condroesternal.
- Na TC, procure fenda, descontinuidade, degrau ou deslocamento e alterações adjacentes de partes moles.
- Revise ativamente a parede torácica anterior, sobretudo se houver fraturas esternais ou múltiplas fraturas costais.
- US dirigida pode confirmar uma lesão superficial dolorosa; sua avaliação dinâmica pode mostrar mobilidade anormal.
- RM dirigida pode esclarecer suspeita persistente e demonstrar edema, mas edema isolado exige interpretação cautelosa.
- Descreva localização e deslocamento no laudo; avalie também as lesões torácicas associadas. PubMed
Referências essenciais
- Nummela MT et al. Incidence and Imaging Findings of Costal Cartilage Fractures in Patients with Blunt Chest Trauma: A Retrospective Review of 1461 Consecutive Whole-Body CT Examinations for Trauma. Radiology, 2018;286:696–704. DOI: 10.1148/radiol.2017162429. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Malghem J et al. Costal cartilage fractures as revealed on CT and sonography. AJR, 2001;176:429–432. DOI: 10.2214/ajr.176.2.1760429. PubMed
- Subhas N et al. MRI evaluation of costal cartilage injuries. AJR, 2008;191:129–132. DOI: 10.2214/AJR.07.3396. PubMed
- Talbot BS et al. Traumatic Rib Injury: Patterns, Imaging Pitfalls, Complications, and Treatment. RadioGraphics, 2017;37. DOI: 10.1148/rg.2017160100. RadioGraphics
- Tomas X et al. Thoracic wall trauma—misdiagnosed lesions on radiographs and usefulness of ultrasound, multidetector computed tomography and magnetic resonance imaging. Quant Imaging Med Surg, 2017;7:384–397. DOI: 10.21037/qims.2017.08.02. Quantitative Imaging in Medicine and Surgery
- Nummela MT et al. Costal cartilage fractures in blunt polytrauma patients—a prospective clinical and radiological follow-up study. Emerg Radiol, 2022;29:845–854. DOI: 10.1007/s10140-022-02066-w. Springer Nature Link
- Forrester JD et al. Lost fractures: prevalence and risk factors for missed costosternal and costal cartilage fractures among patients with radiologic chest wall injury. Trauma Surg Acute Care Open, 2026;11:e002020. DOI: 10.1136/tsaco-2025-002020. PubMed
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Fratura da cartilagem costal junto ao esterno: o que procurar na imagem
• Localize a lesão: junção costocondral, corpo da cartilagem ou junção condroesternal. Nesta última, pode haver separação/luxação, sem fratura no corpo cartilaginoso.
• RX normal não exclui a lesão. Na TC, procure fenda hipodensa, descontinuidade, degrau ou deslocamento e hematoma adjacente. Revise as cartilagens em cortes finos e reconstruções multiplanares.
• US dirigida ajuda na dor superficial localizada e pode demonstrar instabilidade dinâmica. RM dirigida é útil na suspeita persistente, especialmente para edema e partes moles.
• No laudo: lado, costela, localização exata, deslocamento e lesões torácicas associadas.
• Vale procurar ativamente: em uma série de trauma, só 39,5% das fraturas cartilaginosas identificadas retrospectivamente constavam nos laudos iniciais. PubMed
Leituras principais: Nummela et al., Radiology 2018 (DOI); Malghem et al., AJR 2001 (DOI); Forrester et al., TSACO 2026 (DOI).
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