Uma RM aparentemente normal exclui instabilidade lateral crônica do tornozelo?

Ilustração dos ligamentos laterais do tornozelo

Em resumo

Não necessariamente. Em uma série com 49 pacientes submetidos à reconstrução ligamentar, a sensibilidade da RM estática foi de 59,2%, enquanto o exame sob anestesia apresentou sensibilidade de 98%.

Apenas 34,7% apresentavam rotura ligamentar completa. Nos demais, foram observados principalmente frouxidão, alongamento ou lesão parcial — alterações que podem preservar a continuidade aparente do ligamento na RM.

Mensagem prática: continuidade ligamentar não é sinônimo de competência funcional. Os resultados devem ser interpretados com cautela, pois todos os pacientes já tinham indicação cirúrgica.

A instabilidade lateral crônica do tornozelo é uma condição fundamentalmente funcional. Embora a RM demonstre a morfologia dos ligamentos laterais e as lesões associadas, o exame convencional é realizado em repouso e não testa diretamente a competência mecânica do complexo ligamentar.

O estudo

Rajeev e colaboradores avaliaram prospectivamente 49 pacientes com instabilidade lateral crônica sintomática submetidos à reconstrução ligamentar.

Todos realizaram RM pré-operatória, exame do tornozelo sob anestesia e avaliação cirúrgica, utilizada como referência. O exame sob anestesia incluiu testes de gaveta anterior e inclinação talar sob controle fluoroscópico.

Principais resultados

  • 59,2% de sensibilidade para a RM;
  • 98% de sensibilidade para o exame sob anestesia.

Apenas 17 dos 49 pacientes, correspondendo a 34,7%, apresentavam rotura ligamentar completa. Nos demais, foram observadas frouxidão ligamentar, alongamento do complexo ligamentar ou lesões parciais.

Essas alterações ajudam a explicar a menor sensibilidade da RM: um ligamento pode manter continuidade aparente no exame estático e, ainda assim, apresentar insuficiência funcional quando submetido a estresse.

O que a RM demonstra bem

A RM continua sendo importante para identificar:

  • roturas completas ou parciais;
  • espessamento e irregularidade ligamentar;
  • alterações cicatriciais;
  • lesões osteocondrais;
  • impacto anterolateral;
  • lesões dos tendões fibulares;
  • corpos livres;
  • edema ósseo e alterações articulares associadas.

O estudo não demonstra que a RM seja dispensável. Ele mostra que a avaliação morfológica e a avaliação funcional respondem a perguntas diferentes.

Continuidade não significa competência

A RM pode demonstrar que existe tecido ligamentar entre as inserções, mas não determina necessariamente se o ligamento apresenta comprimento adequado, se existe frouxidão, se o tecido cicatricial mantém resistência suficiente ou se há translação ou inclinação anormal durante o movimento.

Assim, a expressão “ligamento íntegro” pode transmitir uma certeza maior do que a imagem realmente sustenta em pacientes com suspeita clínica de instabilidade.

Aplicação ao laudo

Nos casos de suspeita clínica de instabilidade lateral crônica, o laudo deve separar:

  1. Morfologia ligamentar: continuidade, espessura, sinal, irregularidade e orientação.
  2. Lesões associadas: alterações osteocondrais, tendíneas, sinoviais e ósseas.
  3. Competência funcional: aspecto que não pode ser plenamente estabelecido pela RM estática.

A ressalva sobre as limitações funcionais do exame deve ser utilizada de maneira seletiva, quando a pergunta clínica justificar, e não como frase automática.

Limitações do estudo

  • amostra pequena;
  • estudo realizado em uma única instituição;
  • inclusão exclusiva de pacientes sintomáticos já selecionados para cirurgia;
  • ausência de grupo assintomático;
  • possível viés de espectro, com concentração de casos clinicamente mais relevantes.

Uma sensibilidade de 59,2% nessa população não corresponde à probabilidade de um paciente com RM normal apresentar instabilidade.

Mensagem principal

A RM avalia principalmente a estrutura; os testes clínicos e dinâmicos avaliam a função. A continuidade aparente dos ligamentos não deve ser interpretada isoladamente como prova de competência mecânica.

Referência

  1. Rajeev A, Krishnan S, Devalia K. The Diagnostic Role of Examination Under Anaesthesia and MRI in Chronic Symptomatic Lateral Ankle Ligament Instability. Journal of Foot and Ankle Surgery. 2026. DOI: 10.1053/j.jfas.2026.08.020.

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