Lesão ligamentar e tendínea do tornozelo

A lesão do tornozelo é a mais comum do pronto-socorro e responde por 4,4% das visitas a emergências [7]. É também aquela em que o laudo mais frequentemente não muda nada. O desencontro tem uma explicação: entre 5% e 70% das entorses evoluem para instabilidade crônica, a depender de como cada estudo a define [8], e o que separa esse grupo do resto quase nunca está na conclusão de “entorse do tornozelo, sem fratura”.

O erro típico não é deixar de ver a rotura do ligamento fibulotalar anterior. É parar nela. O LFTA rompe em dois terços das lesões laterais [24] — dizer isso raramente muda a conduta. O que muda é o que vem junto: o fibulocalcaneo também rompeu? A sindesmose lesou? O deltoide profundo está roto e a mortise está instável? Há lesão cartilaginosa, presente em 70% das fraturas e em 50% das entorses [7]? Essas perguntas decidem entre tala e centro cirúrgico, e são respondidas por imagem — se o radiologista souber onde olhar.

Este texto inicia o assunto do zero e vai até onde a base permite. No fim dele você deve conseguir descrever a anatomia dos três grupos ligamentares em qualquer plano, separar ligamento normal de ligamento roto sem cair nas armadilhas clássicas, graduar a lesão com uma classificação que o cirurgião reconheça, escolher entre ultrassom e ressonância com um argumento numérico, e escrever um laudo que responda à pergunta do ortopedista em vez de descrever o exame.

Como ler este texto. A Parte 1 inicia o assunto do zero, com etiquetas indicando em que momento da residência cada bloco costuma ser cobrado. A Parte 2 é para R4 e radiologista MSK.

O que você vai aprender

  1. Identificar, em RM e em ultrassom, os três grupos ligamentares do tornozelo e reconhecer a aparência normal de cada um, inclusive as estriações que não são rotura.
  2. Aplicar a sequência de lesão do complexo lateral (LFTA → LFC → LFTP) para prever e procurar as lesões associadas em vez de encontrá-las por acaso.
  3. Medir o espaço claro medial, o espaço claro tibiofibular e a sobreposição tibiofibular na radiografia e dizer o que cada valor autoriza a concluir.
  4. Escolher entre ultrassom e ressonância na suspeita de lesão do LFTA usando números de acurácia, não preferência pessoal.
  5. Graduar a lesão ligamentar aguda em uma escala que o cirurgião use, e localizar a rotura completa (fibular, talar ou substância), porque a localização muda a técnica.
  6. Escrever um laudo estruturado de RM de tornozelo que cubra pele e subcutâneo, osso e articulação, tendão e ligamento — nessa ordem — e termine dizendo o que é instável.

Parte 1 — Iniciando o assunto (R1 a R3)

Quem chega com o tornozelo torcido, e quando pedir imagem

R1 · base

A conta é grande. Lesões do tornozelo representam 4,4% das visitas a emergências nos Estados Unidos, e as entorses agudas somam cerca de dois milhões de casos por ano [7]. Uma outra fonte estima 850 mil por ano [24] — a ordem de grandeza é a mesma, a contagem não. A entorse por inversão responde por 25% de todas as lesões musculoesqueléticas e por metade das lesões esportivas [7]; em outra contagem, entorses representam de 16% a 21% das lesões esportivas [1], e de 16% a 40% em série mais recente [21]. Até 70% da população já teve uma entorse de tornozelo [22].

Esses números importam por um motivo prático: quase todo mundo que você vai laudar tem uma entorse banal, e o exame existe para achar quem não tem. É para isso que servem as Regras de Ottawa. Elas pedem radiografia quando o paciente não consegue descarregar peso, quando há dor à palpação sobre o maléolo medial, sobre a borda posterior ou a ponta do maléolo lateral, sobre o navicular ou sobre a base do quinto metatarsal, ou quando ele não consegue dar quatro passos [7][22]. A regra tem sensibilidade de 92% a 100% para excluir fratura, com especificidade de 16% a 51% [7]; a probabilidade pré-teste de fratura numa entorse lateral aguda é menor que 15%, e uma regra de Ottawa negativa derruba essa probabilidade para menos de 1% [22]. Acrescentar a avaliação do edema leva a sensibilidade a 100%, com especificidade de 55% [7]. As regras valem de uma a três semanas após o trauma e não se aplicam a menores de cinco anos nem a pacientes com sensibilidade alterada [7].

O exame físico isolado, para dizer qual ligamento rompeu, é pior do que parece: ele acerta em cerca de 50% dos casos na fase aguda, subindo para 96% de sensibilidade e 84% de especificidade quando repetido uma semana depois, com o edema já resolvido [16]. O teste da gaveta anterior é o mais sensível para rotura completa do LFTA (sensibilidade 0,96, especificidade 0,84, razão de verossimilhança negativa 0,04) [22]. Para a sindesmose, a palpação é o teste mais sensível (0,92) e o squeeze test o mais específico (0,88) [22].

Na prática, isso significa que o pedido de imagem na fase aguda não é para “ver a entorse”. É para excluir fratura, para identificar instabilidade e para o atleta ou o caso em que a decisão cirúrgica está sobre a mesa [1]. No laudo: quando a radiografia é normal e a pergunta clínica é entorse simples, diga isso de forma afirmativa — “sem fratura; alinhamento tibiotalar preservado; espaço claro medial dentro da normalidade” — em vez de listar o que não foi avaliado.

Figura 1. Radiografias normais do tornozelo: alinhamento e espaços articulares de referência.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 1. Licença: CC BY 4.0.

Os três grupos que estabilizam o tornozelo

R1 · base

A estabilidade do tornozelo depende de três conjuntos ligamentares: o complexo colateral lateral, o ligamento deltoide (colateral medial) e o complexo tibiofibular distal, que chamamos de sindesmose [1][5]. Decorar essa divisão em três resolve metade dos laudos, porque ela organiza a busca.

O complexo lateral tem três ligamentos. O fibulotalar anterior (LFTA) sai da margem anterior do maléolo lateral, cerca de 10 mm acima da extremidade distal da fíbula, e se insere no colo lateral do tálus [5]; ele é intracapsular, o que explica por que a rotura aguda extravasa contraste articular. O fibulocalcaneo (LFC) desce da ponta da fíbula até a face lateral do calcâneo, correndo profundamente aos tendões fibulares — ele é o “piso” da bainha peroneal, e é extra-articular [1][5]. O fibulotalar posterior (LFTP) é o mais espesso e mais forte dos três, e por isso o menos lesado [5][15].

Figura 2. Vista lateral do tornozelo direito com os sítios de inserção do ligamento fibulotalar anterior e do fibulocalcaneo e os marcos ósseos usados para medi-los.

Fonte: Dai M, Zhao H, Sun P, et al., Insights into Imaging, 2024, Figura 1. Licença: CC BY 4.0.

As medidas variam conforme a fonte, e esse é um ponto em que vale não decorar um número só: uma revisão dá ao LFTA 6 a 10 mm de largura, 10 a 16 mm de comprimento e espessura média de 2,19 mm, e ao LFC 6 a 8 mm de diâmetro por 12 a 23 mm de comprimento, com 2,13 mm de espessura [5]; outra, do mesmo ano, descreve o LFTA como 13–25 × 7–11 × 2–3 mm e o LFC como 36 × 5 × 2 mm [16]. Guarde a ordem de grandeza: o LFTA é uma faixa curta e fina de 2 a 3 mm de espessura; o LFC é mais longo e cordonal; o LFTP é o mais robusto, com espessura média de 3,3 mm e comprimento de 22 a 29,6 mm [5].

Figura 3. Complexo ligamentar lateral em RM volumétrica ponderada em T2 (CUBE).

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 2. Licença: CC BY 4.0.

O deltoide é um leque em duas camadas. A camada profunda nasce do colículo anterior do maléolo medial e se insere na fóvea talar, com aspecto estriado característico; a camada superficial tem origem periosteal no maléolo medial e se abre em bandas tibionavicular, tibiocalcânea, tibiospring e tibiotalar superficial [20][21]. A separação entre elas tem consequência: o componente superficial cruza duas articulações, o profundo apenas uma [28]. Nem todos os feixes aparecem sempre — o tibiotalar anterior é visualizado em 84% dos estudos e pode simplesmente faltar como variante [1][21].

A sindesmose é formada por quatro estruturas, e elas não tem importância igual. O ligamento tibiofibular anteroinferior (LTFAI) responde por 35% da estabilidade, o componente profundo do tibiofibular posteroinferior (o ligamento transverso inferior) por 33%, o ligamento interósseo por 22% e o componente superficial do LTFPI por 9% [29]. Essa distribuição é a razão pela qual uma lesão do LTFAI isolada raramente desestabiliza, e a rotura completa do LTFPI é preditor de instabilidade (sensibilidade 74%, especificidade 78%, valor preditivo positivo 54%) [29].

Figura 4. Contribuição de cada componente para a estabilidade da sindesmose tibiofibular distal.

Fonte: esquema original a partir de da Silva LNM et al., RadioGraphics, 2026. Licença: original.

Figura 5. Estabilizadores mediais e ligamentos sindesmóticos em RM volumétrica (CUBE).

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 3. Licença: CC BY 4.0.

No laudo: nomeie o ligamento, não a região. “Alteração ligamentar lateral” não ajuda ninguém; “descontinuidade do LFTA na inserção fibular, com LFC e LFTP íntegros” resolve a consulta.

Como o ligamento normal aparece — e o que não é rotura

R1 · base

Ligamento normal é escuro em todas as sequências [6]. Essa é a regra. O problema são as três exceções que fazem laudar rotura em tornozelo normal.

A primeira é a estriação por gordura interposta. Vários ligamentos do tornozelo, e o tibiotalar posterior mais que os outros, têm gordura entre os fascículos e aparecem listrados, num padrão que a literatura descreve como zebra-like [1][6]. Isso é anatomia, não lesão. O que diferencia: a estriação normal mantém os feixes paralelos, contínuos e de calibre uniforme; a lesão intersticial mostra hipersinal que atravessa o ligamento sem respeitar a orientação das fibras.

A segunda é o ângulo mágico. Sinal artificialmente alto aparece quando a estrutura faz 55° com o eixo do campo magnético, e o efeito existe em sequências de TE curto — na prática, até cerca de 50 ms [6]. Ele é mais forte nos flexores e nos fibulares à altura dos maléolos, exatamente onde esses tendões curvam. A saída é olhar a mesma estrutura numa sequência T2 de TE longo: se o sinal alto some, era ângulo mágico. Posicionar o paciente em decúbito ventral elimina o artefato, mas impede a bobina em bota e muda a orientação dos colaterais [6].

A terceira é o volume parcial. Cortes 2D de 2 a 3 mm, com gap entre eles, atravessam obliquamente um ligamento de 2 mm e produzem descontinuidade aparente [6][13]. É o motivo pelo qual protocolos 3D isotrópicos mudaram a sensibilidade para o LFTA — assunto da Parte 2.

Some a isso duas armadilhas de partes moles. Uma pequena lâmina de líquido anterior à origem normal do deltoide superficial não é rotura [20]. E o espessamento isolado do ligamento talonavicular dorsal aparece em 44% de tornozelos normais, de modo que, sozinho, ele não faz diagnóstico de entorse mediotársica [16].

No laudo: cuidado com overcall de lesão ligamentar e tendinopatia.

A entorse lateral, do LFTA ao LFC

R2

A pergunta desta seção é simples: depois do LFTA, o que mais procurar? A resposta vem do mecanismo. A inversão com flexão plantar e rotação interna tensiona primeiro o LFTA, depois o LFC, e só em lesões graves chega ao LFTP [1][6][16]. Essa ordem não é mnemônica, é sequência de falha — e é por isso que “LFC roto com LFTA íntegro” deve acender uma luz de revisão do exame.

Os números confirmam a hierarquia. O complexo lateral responde por 60% a 80% de todas as lesões ligamentares do tornozelo [6][13]; por cerca de 85% das entorses, em outra contagem [14][21]; e o LFTA está envolvido em aproximadamente 73% dos casos [16], ou em até 80% [17]. Dois terços das entorses laterais são roturas isoladas do LFTA [24]. A rotura é mais comum na êntese fibular do que na inserção talar [24].

Na RM aguda, os sinais primários são descontinuidade, desinserção e espessamento com hipersinal T2 dentro do ligamento; os secundários são extravasamento articular, derrame e contusão óssea [1]. A contusão importa: ela aparece em 7% das primeiras entorses e em 25% das recorrentes, e as kissing lesions em 5% a 11% [1]. Na fase crônica o ligamento muda de cara — espessado, afilado, alongado ou ondulado, sem edema, com o sinal de gordura adjacente reduzido por fibrose [1][5].

Figura 6. Rotura do ligamento fibulotalar anterior ao ultrassom e na RM, com tendões fibulares íntegros.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 6. Licença: CC BY 4.0.

Figura 7. Rotura do complexo ligamentar colateral lateral, com descontinuidade e retração; observe o fibulotalar posterior íntegro.

Fonte: Gyftopoulos S, Woertler K, em Hodler J et al. (eds), Musculoskeletal Diseases 2021-2024, Springer, 2021, Figura 8.9. Licença: CC BY 4.0.

O ultrassom vê bem esse ligamento porque ele é superficial: com transdutores de até 18 MHz, a resolução espacial no LFTA é melhor que a da ressonância [24]. A diretriz da ESSR dá ao ultrassom nível de evidência A para avaliação do LFTA [24]. A limitação é conhecida — operador-dependente, ruim para a porção intra-articular do ligamento e para lesão óssea ou osteocondral associada [24].

No laudo: depois de descrever o LFTA, diga explicitamente o estado do LFC e do LFTP, e procure o domo talar. Lesão osteocondral ocorre em até 7% das entorses e mais da metade não aparece na radiografia [21].

Entorse medial: por que o deltoide quase nunca vai sozinho

R2

Lesão isolada do deltoide é rara. Ele é lesado em cerca de 5% das entorses [16], em 5% a 6% das lesões ligamentares [1], e de 10% a 16% das lesões em atletas [6]. Quando aparece, está associado a lesão do complexo lateral em cerca de 75% dos casos, a lesão sindesmótica em 10% e a fratura maleolar — tipicamente supinação-rotação externa, Weber B — em 20% a 50% [21]. Na outra direção, 67,3% dos tornozelos operados por instabilidade lateral tinham lesão deltoídea concomitante [20].

O critério de RM é específico e vale decorar. Para o componente superficial, procure descontinuidade focal na origem, no maléolo medial, ou o descolamento do que Crim e Longenecker chamam de fascial sleeve do maléolo medial — a lâmina contínua formada pela origem do deltoide superficial, o periósteo e a inserção do retináculo flexor. Quando ela se separa, aparece uma linha fina de líquido no plano axial [20]. Para o componente profundo, o critério é descontinuidade ou não visualização das fibras [20]. Edema de medula óssea não entra como critério: ele é pouco específico, sobretudo na instabilidade crônica [20].

O desempenho é bom quando se usa o critério certo: sensibilidade de 83,3% e especificidade de 93,9% para o deltoide superficial, e de 96,3% e 97,9% para o profundo [20]. Em série independente, a RM mostra sensibilidade de 84% a 100% e especificidade de 93% a 100% para lesão medial [6]. Ainda assim, oito das nove roturas superficiais perdidas prospectivamente eram visíveis na revisão retrospectiva [20] — o problema não era o exame, era a busca.

Figura 8. Artrorressonância demonstrando rotura do ligamento deltoide.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 14. Licença: CC BY 4.0.

Figura 9. Lesões do complexo deltoide e do ligamento tibiospring.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 15. Licença: CC BY 4.0.

Quando o deltoide superficial rompe, procure companhia: retináculo flexor lesado em 37,0% e ligamento em mola em 11,1% dos casos [20].

No laudo: separe superficial de profundo, diga onde a descontinuidade está (origem maleolar, substância, inserção) e, se houver fratura do maléolo lateral, comente o espaço claro medial. É essa frase que decide a mortise.

Sindesmose: a entorse que custa caro

R2

A entorse sindesmótica é cerca de 7% das entorses de tornozelo na população geral e chega a 40% em atletas [16]. Outras fontes dão 10% [14], 10% a 17% [1][6], e mais de 30% em esportes de alto impacto contra menos de 5% nos de baixo impacto [1]. A variação reflete populações diferentes; o que todas concordam é que ela é subdiagnosticada e que custa semanas a mais de afastamento.

O mecanismo é a rotação externa com o pé em dorsiflexão, ou a pronação com eversão [1][22]. Quando o mecanismo descrito pelo paciente é esse — e não a inversão clássica —, a sindesmose deve ser o primeiro alvo da busca, não o último.

Figura 10. Rotura sindesmótica anterior nos planos coronal e axial.

Fonte: Gyftopoulos S, Woertler K, em Hodler J et al. (eds), Musculoskeletal Diseases 2021-2024, Springer, 2021, Figura 8.10. Licença: CC BY 4.0.

Figura 11. Lesões sindesmótica e do ligamento fibulotalar anterior no mesmo tornozelo.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 9. Licença: CC BY 4.0.

A associação com fratura segue o padrão de Lauge-Hansen e de Weber: lesão sindesmótica está presente em 17% a 52% das fraturas Weber B e em até 92% das Weber C [29]. Em outra contagem, aproximadamente 50% das Weber B e a maioria das Weber C [14]. E 15% das lesões sindesmóticas vistas na RM não têm fratura na radiografia [7] — ou seja, radiografia normal não encerra o assunto.

A RM é excelente aqui. A acurácia é de 76% a 100% para o LTFAI e de 88% a 100% para o LTFPI na fase aguda [29]; em série 2D, 97% para o componente anterior e 100% para o posterior [6]; e a acurácia global contra artroscopia chega a 100%, contra 64% da incidência em mortise e 48% da incidência AP [16]. Na fase crônica o desempenho despenca — sensibilidade de 54% a 62% e especificidade de 52% a 61% [29] —, e é aí que os métodos de estresse entram, assunto da Parte 2.

Uma medida útil e pouco usada: o recesso tibiofibular normal mede 0,54 ± 0,68 cm, sobe para 1,2 ± 0,92 cm na lesão aguda e para 1,4 ± 0,57 cm na crônica [16]. Outra fonte considera normal até 5 mm e sugere lesão acima de 12 mm [21] — duas réguas diferentes para a mesma estrutura, o que pede cautela ao citar um número no laudo.

No laudo: diga qual componente rompeu. “Lesão sindesmótica” sem especificar LTFAI, LTFPI superficial, LTFPI profundo ou interósseo não permite ao cirurgião estimar instabilidade — e é a rotura completa do LTFPI que mais prediz instabilidade [29].

O que a radiografia ainda decide

R2

A radiografia parece o exame de menor valor deste texto, e não é. Ela decide a urgência.

A incidência em mortise, com 20° de rotação interna, evita a superposição da fíbula sobre o domo talar e é a que permite medir [15]. As medidas que a base sustenta:

MedidaValor normalFonte
Espaço claro medial (ECM)≤ 4 mm[29]
Espaço claro medial confirmando estabilidade< 4 mm[7]
Espaço claro tibiofibular (TFCS)≤ 6 mm (diferença ≥ 2 mm entre os lados = lesão)[29]
Espaço claro tibiofibular< 5 mm[21]
Sobreposição tibiofibular (TFO)> 6 mm na AP, > 1 mm na mortise[29]
Espaço tibiotalar~4 mm[21]
Paralelismo tíbio-talar sob estressedivergência > 5° é anormal[21]

As duas linhas de espaço claro tibiofibular não coincidem (≤ 6 mm contra < 5 mm) e as duas fontes são do mesmo período. Trate 5 mm como o limiar conservador e compare sempre com o lado contralateral quando houver dúvida. O desempenho isolado dessas medidas é modesto: um clear space tibiofibular maior que 5 mm tem sensibilidade de 82% e especificidade de 75%; a sobreposição reduzida (< 6 mm na AP ou < 2,8 mm na mortise) tem sensibilidade de apenas 36%, com especificidade de 87% [21].

Figura 12. Aspecto radiográfico do alargamento sindesmótico.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 16. Licença: CC BY 4.0.

Vale conhecer as incidências acessórias, porque elas resolvem casos específicos: Harris-Beath para o calcâneo, Broden para o processo lateral do tálus (com 30° a 45° de rotação interna), a incidência dedicada ao LFTA — que detecta 26% de fraturas fibulares ocultas — e a gravity stress view para o deltoide [7]. A fratura do snowboarder, no processo lateral do tálus, passa despercebida em 40% a 50% das radiografias de rotina [7].

Um dado que muda o encaminhamento: derrame sem fratura visível na radiografia ocorre em menos de 1% dos casos, e a tomografia encontra fratura em um terço desses [7]. Derrame inexplicado, portanto, é indicação de complementar.

No laudo: meça e escreva o número. “Espaço claro medial de 6 mm (contralateral 3 mm)” é acionável; “alargamento do espaço claro medial” é opinião.

Os quatro compartimentos tendíneos

R1 · base

Os tendões do tornozelo se organizam em quatro grupos, e essa divisão é a estrutura da sua busca no corte axial: medial (tibial posterior, flexor longo dos dedos, flexor longo do hálux), lateral (fibular curto e longo), anterior (extensor longo do hálux, extensor longo dos dedos e tibial anterior) e posterior (o tendão calcâneo, ou de Aquiles) [2][14].

Figura 13. Os quatro compartimentos tendíneos do tornozelo na RM.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 4. Licença: CC BY 4.0.

Do grupo medial, vale o mnemônico clássico, de anterior para posterior: Tom, Dick, And Very Nervous Harry — tibial posterior, flexor longo dos dedos, artéria e veia tibiais posteriores, nervo tibial, flexor longo do hálux [15]. E uma regra de calibre: o tibial posterior tem cerca do dobro do diâmetro do flexor longo dos dedos, numa relação de aproximadamente 2:1 [15]. Quando essa proporção se inverte, o tibial posterior está doente.

O espectro de doença tendínea é sempre o mesmo, em qualquer compartimento: tenossinovite, tenossinovite estenosante, tendinopatia, rotura parcial, rotura completa e luxação [2]. Vale insistir na distinção entre tendinopatia — o termo preferido — e tendinite, inflamação, que raramente é o que se vê [2][25].

Duas particularidades anatômicas explicam muita coisa. O tendão de Aquiles não tem bainha sinovial — ele é envolvido por um paratendão, e por isso não faz tenossinovite, faz peritendinite [2]. E a bainha do flexor longo do hálux comunica-se com a articulação em 20% das pessoas, de modo que líquido nessa bainha pode ser apenas derrame articular transmitido [2].

No laudo: descreva o tendão pelo compartimento e pelo achado, e diga se há disrupção. “Tendinopatia do fibular curto” e “lesão do tipo split do fibular curto” levam a condutas diferentes.

Aquiles

R2

A pergunta que este tendão faz é onde a lesão está, porque a topografia define tudo.

As lesões não insercionais ocorrem de 2 a 6 cm acima da inserção, na zona de vascularização reduzida [2][14], e incluem peritendinite, tendinose e rotura. As insercionais combinam tendinose na êntese, bursite retrocalcânea e, com frequência, a deformidade de Haglund [2][14]. A bursa retrocalcânea é considerada distendida acima de 7 mm no sentido craniocaudal ou 11 mm no transverso [2]. O tendão normal tem 4 a 7 mm de espessura e 5 a 6 cm de comprimento, com zona hipovascular de 2 a 6 cm acima da inserção [21].

Figura 14. Síndrome de Haglund: tendinose insercional do tendão calcâneo com bursite retrocalcânea.

Fonte: Gyftopoulos S, Woertler K, em Hodler J et al. (eds), Musculoskeletal Diseases 2021-2024, Springer, 2021, Figura 8.2. Licença: CC BY 4.0.

Figura 15. Padrões de lesão do tendão calcâneo na RM.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 19. Licença: CC BY 4.0.

O diagnóstico clínico de rotura completa falha em cerca de 25% dos casos [2], o que justifica a imagem mesmo quando o exame físico parece conclusivo. No ultrassom, os achados que favorecem rotura completa são retração tendínea, sombra acústica posterior, herniação de gordura no defeito e visualização do tendão plantar íntegro [18]. A sensibilidade e a especificidade do ultrassom para roturas tendíneas chegam perto de 100% [18], e a acurácia contra a cirurgia é de 93% com sensibilidade de 100% [8].

A medida do gap importa porque é o que define a técnica: defeito menor que 3 cm permite reparo direto, de 2 a 5 cm pede transferência ou retalho, e acima de 5 cm exige reconstrução com enxerto [18].

Uma armadilha vale registrar: a pseudorruptura do Aquiles, produzida pela rotação dos fascículos do tendão, que simula descontinuidade no plano axial [28].

E um diferencial que não pode faltar em dor aguda de panturrilha: o tennis leg — hematoma intermuscular entre o gastrocnêmio medial e o sóleo, que na verdade é lesão da junção miotendínea distal do gastrocnêmio medial, e não rotura do plantar, historicamente sobrediagnosticada [18]. As lesões do sóleo (46,2%) quase igualam as do gastrocnêmio (49,7%) como causa de dor posterior da perna [18]. Trombose venosa profunda e cisto de Baker roto entram no mesmo diferencial; o líquido do cisto roto é superficial ao gastrocnêmio medial, enquanto o hematoma do tennis leg é profundo a ele [18].

No laudo: na rotura completa, meça o gap com o pé em posição neutra e diga onde está o limite proximal e distal. Esse número é o que o cirurgião usa.

Fibulares

R2–R3

Os fibulares são o segundo motivo mais comum de dor lateral crônica do tornozelo, depois dos ligamentos laterais [8], e são o grupo em que o ultrassom mais claramente supera a ressonância.

O achado característico é a  lesão do tipo split tear do fibular curto: o tendão se abre longitudinalmente e adquire configuração em “C”, envolvendo parcialmente o fibular longo — o chamado chevron sign [2][15]. O mecanismo é compressão entre o maléolo lateral e o fibular longo, e os fatores predisponentes são um sulco retromaleolar plano ou convexo, ventre muscular baixo do fibular curto e presença do músculo fibular quarto [2]. Em cerca de um terço dos casos há rotura associada do fibular longo [2].

Figura 16. Tendinose dos fibulares: ultrassom, RM e correlação intraoperatória.

Fonte: Melville DM, Lee SW, Taljanovic MS, et al., Journal of Clinical Medicine, 2024, Figura 1. Licença: CC BY 4.0.

Figura 17. Tenossinovite dos fibulares nos planos axial e coronal.

Fonte: Gyftopoulos S, Woertler K, em Hodler J et al. (eds), Musculoskeletal Diseases 2021-2024, Springer, 2021, Figura 8.3. Licença: CC BY 4.0.

O desempenho comparado é instrutivo. Contra achados intraoperatórios, a ressonância acertou 100% de sensibilidade e 100% de especificidade para todas as roturas fibulares; o ultrassom teve 85% de sensibilidade e 100% de especificidade para rotura do fibular curto [26]. A inversão acontece na subluxação: ultrassom com 100% de sensibilidade e 100% de especificidade, contra 66% de sensibilidade da ressonância [26]. O motivo é banal e decisivo — a ressonância é estática, e a subluxação fibular pode só aparecer na manobra dinâmica de dorsiflexão com eversão [26].

Isso tem consequência sobre o protocolo. A ressonância se beneficia de cerca de 20° de flexão plantar para separar os dois tendões dentro da bainha comum [26]; o ultrassom exige o joelho semifletido com rotação interna e a manobra dinâmica [26]. Se a pergunta clínica é “o tendão sai do lugar?”, peça ultrassom.

Uma nota de prevalência que evita laudo excessivo: até 34% dos indivíduos assintomáticos têm rotura crônica do fibular curto [8]. Achado não é sintoma.

No laudo: na suspeita de instabilidade fibular, diga se o retináculo fibular superior está íntegro e descreva o tipo — luxação extrabainha ou intrabainha [26].

Tibial posterior e tibial anterior

R2

O tibial posterior é o inversor mais potente e o estabilizador do arco medial; sua rotura leva a pé plano progressivo [2].

O navicular acessório predispõe à rotura e aparece em até 14% das pessoas [2]. Ele tem três tipos: o tipo I é um sesamoide intratendíneo, geralmente assintomático; o tipo II tem ponte fibrocartilaginosa com o navicular e é o mais doloroso; o tipo III é uma tuberosidade proeminente [2][28]. Um detalhe de correlação clínica que vale guardar: no tipo II sintomático, o edema de partes moles correlaciona-se com a dor, enquanto o edema ósseo, sozinho, não [28].

A nomenclatura desse território mudou. O consenso de 2020 abandonou “disfunção do tendão tibial posterior” e “pé plano adquirido do adulto” em favor de deformidade colapsante progressiva do pé (progressive collapsing foot deformity, PCFD), com aprovação unânime dos delegados [27]. A nova classificação combina estágio I (flexível) ou II (rígido) com classes A (valgo do retropé), B (abdução do mediopé), C (varo do antepé), D (subluxação peritalar) e E (instabilidade do tornozelo) — daí notações como “1ACE” [27]. Vale saber que a ressonância foi explicitamente rejeitada como componente da classificação (apenas 33% a favor) e que a tomografia com carga não foi incorporada (56% a favor) [27].

O tibial anterior é o terceiro tendão mais rompido do membro inferior [15], e a rotura ocorre tipicamente de 0,5 a 3 cm da inserção [2].

Figura 18. Rotura do tendão tibial anterior nos planos axial e sagital.

Fonte: Gyftopoulos S, Woertler K, em Hodler J et al. (eds), Musculoskeletal Diseases 2021-2024, Springer, 2021, Figura 8.1. Licença: CC BY 4.0.

Ultrassom ou ressonância na fase aguda?

R3 · fino

Esta é a pergunta que mais aparece na prática.

Para o LFTA, a meta-análise de nove estudos, com artroscopia como referência em sete deles, é direta: o ultrassom tem sensibilidade de 96,88% (IC 95% 93,55–98,78) contra 88,50% (85,05–91,40) da ressonância, com p < 0,05; a especificidade é de 88,40% contra 81,38%; as acurácias são de 93,50% e 92,66% [24]. Os estudos de ultrassom são homogêneos (I² = 21,5%); os de ressonância, não (I² = 85,7%) [24] — o que significa que o desempenho do ultrassom é mais reprodutível entre serviços do que o da ressonância.

Figura 19. Desempenho do ultrassom e da ressonância para lesão do ligamento fibulotalar anterior, em meta-análise de nove estudos.

Fonte: esquema original a partir de Colò G et al., Diagnostics, 2023. Licença: original.

Isso não elege o ultrassom como exame único. Ele não avalia a porção intra-articular do ligamento, não vê lesão osteocondral e depende da tolerância à dor para o estresse dinâmico [24]. A ressonância está indicada quando há suspeita de lesão óssea ou condral associada [24], e é ela que mede instabilidade e grau, o que é crítico para conduta e retorno ao esporte [7].

Os critérios de adequação do ACR fecham a questão por variante clínica: na dor crônica com suspeita de instabilidade ou lesão ligamentar, a ressonância sem contraste é “usually appropriate”, com ultrassom e radiografia sob estresse como adjuvantes; na suspeita de patologia tendínea, ultrassom e ressonância são ambos “usually appropriate” [8]. No trauma agudo, ultrassom e cintilografia são “usually not appropriate” em todas as seis variantes [7] — o que é uma divergência a considerar diante dos números da meta-análise.

No laudo: se você fez ultrassom e a pergunta incluía o domo talar, diga que o método não responde essa parte. Silêncio sobre a limitação vira falso negativo no prontuário.

Parte 2 — Aprofundando (R4 e radiologista MSK)

As medidas do complexo lateral não fecham entre as fontes

R4 · especialista

A Parte 1 pediu que você guardasse a ordem de grandeza das dimensões ligamentares em vez de um número. Aqui está o motivo.

Duas revisões de 2023, ambas em periódicos de referência, descrevem o mesmo ligamento com números diferentes. Uma dá ao LFTA 10 a 16 mm de comprimento, 6 a 10 mm de largura e espessura média de 2,19 mm; ao LFC, 12 a 23 mm de comprimento e 6 a 8 mm de diâmetro, com 2,13 mm de espessura; ao LFTP, 22,0 a 29,6 mm de comprimento e 3,3 mm de espessura [5]. A outra descreve o LFTA como 13–25 × 7–11 × 2–3 mm e o LFC como 36 × 5 × 2 mm [16]. No LFC a diferença é grande demais para ser variação de método: 12 a 23 mm contra 36 mm.

Figura 20. Comprimento dos ligamentos do complexo lateral segundo duas revisões de 2023.

Fonte: esquema original a partir de do Amaral e Castro A et al., Foot and Ankle Clinics of North America, 2023, e Beltran LS et al., Radiologic Clinics of North America, 2023. Licença: original.

Nenhuma das duas é estudo anatômico primário; são revisões narrativas citando fontes que não estão na pasta. O que existe de medida primária aqui é de outra natureza: um estudo cadavérico com correlação em RM 3D de alta resolução mediu não o comprimento do ligamento, mas as distâncias entre marcos ósseos e as ênteses — e essas, sim, vêm com desvio-padrão e com método descrito [10].

A consequência prática é ficar com a descrição morfológica e abandonar a medida absoluta. Dizer que o LFTA está “espessado e alongado” só faz sentido em comparação com o lado contralateral ou com a aparência esperada, não contra uma régua. É o que a base de ultrassom faz ao propor “espessado acima de 2,4 mm ou mais de 20% em relação ao contralateral” como critério de laudo [5].

No laudo: evite afirmar que um ligamento está alongado com base em um número absoluto. Compare com o contralateral quando o estudo permitir, ou descreva o padrão.

RM 3D isotrópica: o que muda de verdade

R4 · especialista

Um protocolo 2D típico de tornozelo tem cinco a seis sequências e leva até 25 minutos, com cortes de 2 a 4 mm e gap entre eles [6]. Cada estrutura exige sua orientação, e o ligamento que não estiver no plano da aquisição sofre volume parcial. A aquisição 3D isotrópica troca isso por um único volume reformatável em qualquer plano, inclusive curvo.

Os parâmetros que a base recomenda: densidade de prótons 3D sem saturação de gordura com voxel de 0,5 × 0,5 × 0,5 mm³ em cinco minutos, e DP ou T2 3D com saturação de gordura com voxel de 0,6 mm³, também em cinco minutos — um protocolo 3D de dez minutos ao todo, adquirido no sagital e reformatado depois, preferencialmente em 3,0 T, que oferece cerca do dobro do sinal de 1,5 T [6]. A leitura é feita em reformatações de 1,0 a 1,5 mm [6]. Uma revisão paralela sugere voxel de 0,5 a 0,7 mm³, admitindo 0,8 mm³ em tornozelos grandes, e descreve protocolo institucional com DP fat-sat sagital de 0,8 mm em 1,5 T e 0,7 mm em 3,0 T, em 4,22 e 5,43 minutos [13]. Sequências 3D FSE/TSE são preferíveis às de gradiente-eco para osso e partes moles; o gradiente-eco 3D fica para cartilagem [6].

O ganho para o LFTA é mensurável: sensibilidade de 96% com T2 3D TSE contra 84% a 86% do 2D em série de 101 pacientes [6][13]; em outra, sensibilidade e especificidade de 100% e 97% com 3D contra 75% e 93% com 2D na entorse [13]. Para o ligamento de Lisfranc, a visualização em um único plano sobe de 28,5% no 2D para 96,9% no 3D SPACE em voluntários [13].

Figura 21. O ligamento fibulotalar anterior em toda a sua extensão, na reconstrução de RM 3D, comparando seis resoluções espaciais (0,3 a 1,05 mm).

Fonte: Dai M, Zhao H, Sun P, et al., Insights into Imaging, 2024, Figura 2. Licença: CC BY 4.0.

O estudo cadavérico mais específico da base testou seis resoluções, de 0,3 a 1,05 mm³, contra dissecção [10]. A conclusão útil é operacional: 0,45 × 0,45 × 0,45 mm³ é o melhor equilíbrio entre qualidade e tempo, com 5 minutos e 58 segundos de aquisição, enquanto 0,3 mm³ tem qualidade superior mas exige 14 minutos e 25 segundos — impraticável num tornozelo doloroso [10]. A concordância interobservador subjetiva foi de 0,95 (IC 95% 0,94–0,97) [10]. Há uma exceção que vale registrar: para a distância entre a origem do LFC e a ponta da fíbula, a concordância foi melhor em 0,3 mm³ (ICC 0,90) do que em 0,45 mm³ (0,74), por causa da interconexão entre o feixe inferior do LFTA e o LFC na fíbula, através de fibras arciformes [10].

O tempo de aquisição pode cair mais. Compressed sensing acelerado por aprendizado profundo reduziu o exame de 12 minutos e 44 segundos para 6 minutos e 45 segundos sem diferença significativa de detecção para nenhuma estrutura, e com concordância intersequência perfeita (kappa = 1,0) [12]. A aceleração mais agressiva, para 4 minutos e 46 segundos, piorou a detecção de forma significativa em quase todas as estruturas (p ≤ 0,001), embora ainda tenha detectado 47 de 49 anormalidades — perdeu uma rotura longitudinal do fibular curto e um edema medular do tálus menor que 3 mm [12]. Um detalhe contraintuitivo e importante: a relação sinal-ruído foi maior na aceleração agressiva, o que não reflete a qualidade percebida, porque o ganho é compensado por borramento real [12]. Nenhum dos protocolos criou anormalidade artificial [12].

 

Graduar o LFTA: qual classificação serve ao cirurgião

R4 · especialista

A graduação clínica clássica da entorse em três graus — I, estiramento com edema e dor mínimos e sem frouxidão; II, rotura parcial com frouxidão leve a moderada; III, rotura completa com edema intenso e instabilidade grosseira [1] — é anterior à imagem e não é o que o cirurgião quer.

Cito duas classificações de imagem desenvolvidas contra artroscopia, e ambas separam o que a escala clínica junta.

A primeira, de ultrassom, tem cinco graus: 0, normal, com padrão fibrilar preservado; I, estiramento leve, ligamento tumefeito mas íntegro; II, rotura parcial, com continuidade rompida e área hipoecoica mas sem desconexão; III, rotura completa, ligamento desconectado com retração; IV, fratura-avulsão, com fragmento ósseo avulsionado [4].

Figura 22. Os cinco graus da lesão aguda do ligamento fibulotalar anterior ao ultrassom.

Fonte: esquema original a partir de Shi X et al., Academic Radiology, 2025. Licença: original.

A segunda, de ressonância, vai além e subdivide a rotura completa por localização: grupo 0 normal, 1 estiramento ou degeneração, 2 rotura parcial, 3 rotura completa — e esta em 3.1 fibular, 3.2 talar, 3.3 fibular com avulsão, 3.4 talar com avulsão e 3.5 substância [17]. A distribuição em 1.073 casos mostra por que isso importa: a rotura fibular isolada foi de longe a mais comum (285 casos), seguida da fibular com avulsão (215), e nenhum caso de avulsão ocorreu na rotura de substância [17].

Essa subdivisão é o ponto. Saber se o coto está na fíbula, no tálus ou no meio do ligamento, e se há fragmento ósseo avulsionado, muda a estratégia cirúrgica — reparo anatômico contra reconstrução com enxerto [17]. Um laudo que diz apenas “rotura completa do LFTA” deixa essa decisão em aberto. A teoria é essa, entretanto, nem sempre é fácil diferenciar lesão parcial de completa, e onde é o local da descontinuidade.

Sobre a concordância humana: a acurácia dos radiologistas na literatura varia de 0,58 a 0,94 para essa tarefa [17], e a concordância RM-artroscopia na lesão crônica fica entre 70% e 79% [17]. Modelos de aprendizado profundo superaram radiologistas seniores em validação externa, com AUC macro-média acima de 0,970 em todos os conjuntos [4][17]. Os graus em que as máquinas mais erram, no entanto, são justamente os extremos benignos — grau 0 (sensibilidade de 0,42 a 0,91) e grau I (0,63 a 0,84) —, enquanto os radiologistas foram superiores nesses dois [4]. E o achado mais aplicável de todos: usar a saída do modelo como assistência elevou a concordância entre doze leitores de moderada (Fleiss κ 0,421–0,581) para substancial (0,663–0,681), com ganho maior entre os menos experientes [4].

No laudo: na rotura completa do LFTA, diga onde. “Rotura completa do LFTA com coto retraído junto à inserção fibular, sem fragmento ósseo avulsionado” é o grau de detalhe que o cirurgião gostaria.

Deltoide: quem decide a instabilidade da mortise

R4 · especialista

Numa fratura do maléolo lateral por supinação-rotação externa, a pergunta é única: o deltoide profundo rompeu? Se sim, o padrão é SER IV, a mortise é instável e a fratura é cirúrgica [9]. A resposta tradicional é o teste de estresse manual com radiografia. A Litertura mostra que ele é ruim.

Num estudo prospectivo de 79 tornozelos com visualização direta do deltoide profundo na cirurgia como padrão-ouro, o desempenho depende do espaço claro medial medido na radiografia da lesão, ao nível da cúpula talar, com corte de 5 mm [9]. Quando o ECM é menor que 5 mm, a ressonância é muito mais acurada que o teste de estresse: acurácia de 79% contra 46%, sensibilidade de 74% contra 53%, especificidade de 100% contra 20% [9]. Quando o ECM já é maior que 5 mm, o próprio ECM supera a ressonância: acurácia de 95% contra 85%, sensibilidade de 100% contra 85% [9].

Figura 23. O que o espaço claro medial decide na fratura do maléolo lateral por supinação-rotação externa.

Fonte: esquema original a partir de Warner SJ et al., HSS Journal, 2019. Licença: original.

O algoritmo combinado — ressonância quando o ECM é menor que 5 mm, o próprio ECM quando é maior — alcança sensibilidade de 93%, especificidade de 63% e acurácia de 90% [9]. Isoladamente, a ressonância tem sensibilidade de 82%, especificidade de 100%, valor preditivo positivo de 100% e valor preditivo negativo de 38%; o ECM isolado tem sensibilidade de 87% mas especificidade de apenas 13%, ou seja, produz falso-positivo em massa [9].

Duas ressalvas honestas. A prevalência de rotura na coorte foi de 71 em 79 (90%), porque só entraram pacientes operados — há viés de seleção e os valores preditivos não se transferem para uma população não selecionada [9]. E a concordância interobservador da ressonância nesse estudo foi apenas razoável (75%, kappa 0,36) [9].

No laudo: em fratura do maléolo lateral, meça o espaço claro medial e escreva o número. Se ele estiver abaixo de 5 mm e a suspeita de instabilidade persistir, a recomendação que a Literatura sustenta é ressonância, não estresse manual.

O split do fibular curto e a instabilidade fibular

R4 · especialista

A luxação dos tendões fibulares é rara — 0,3% a 0,5% das lesões traumáticas do tornozelo — e é frequentemente confundida com entorse [3]. Vale conhecer o fator de risco que esta revisão quantifica, porque ele é mensurável.

O ventre muscular baixo e hipertrófico do fibular curto aumenta a pressão dentro do retináculo fibular superior durante a dorsiflexão com eversão vigorosa, rompendo o retináculo [3].

Figura 24. Roturas dos tendões fibulares: ultrassom, RM e correlação intraoperatória.

Fonte: Melville DM, Lee SW, Taljanovic MS, et al., Journal of Clinical Medicine, 2024, Figura 2. Licença: CC BY 4.0.

Figura 25. Luxação anterior do fibular longo ao ultrassom, na RM e na cirurgia.

Fonte: Melville DM, Lee SW, Taljanovic MS, et al., Journal of Clinical Medicine, 2024, Figura 3. Licença: CC BY 4.0.

A Parte 1 já estabeleceu que a instabilidade fibular é território do ultrassom dinâmico, não da ressonância. O que a revisão acrescenta aqui é a distinção que muda a cirurgia: a instabilidade extrabainha, em que o tendão sai para a posição pré-fibular, e a intrabainha, em que ele permanece retrofibular mas troca de posição com o outro [26]. São procedimentos diferentes, e a manobra dinâmica que revela uma nem sempre revela a outra.

No laudo: quando houver split do fibular curto, procure e comente o fibular longo (rotura associada em cerca de um terço [2]), o retináculo fibular superior, o sulco retromaleolar e a presença de fibular quarto ou de ventre muscular baixo.

Os subfibulare ou fratura-avulsão não consolidada?

R4 · especialista

O ossículo abaixo da ponta da fíbula é achado comum e a conduta depende de saber se ele é uma variante ou uma fratura que não colou. A revisão traz o estudo que resolve isso com critérios reprodutíveis, em 114 ossículos de 108 pacientes [11].

Clinicamente, a fratura-avulsão não consolidada dói mais (92,3% contra 71,4%, p = 0,003) e gera mais instabilidade (29,2% contra 10,2%, p = 0,014) que o os subfibulare verdadeiro [11].

Na tomografia, sete critérios separam os dois: forma, margem, tamanho, atenuação, localização, orientação e relação com o osso. A fratura não consolidada é mais irregular, tem margem rugosa, atenuação maior e orientação anteroposterior (todos com p < 0,05) [11]. O modelo combinado de TC alcança AUC de 0,782, com acurácia de 74,3%, sensibilidade de 91,9% e especificidade de 56,8% — sensível, pouco específico [11].

Figura 26. Esquema das quatro relações possíveis entre o ligamento e o ossículo subfibular na RM: descontínua, contígua e variantes intermediárias.

Fonte: Xu N, Sun P, Zhang J, et al., Insights into Imaging, 2025, Figura 1. Licença: CC BY 4.0.

A ressonância faz melhor, e o critério é elegante: classificar a relação entre o ligamento e o ossículo em contígua, aposta ou descontínua. O padrão contíguo aparece em 72,3% das fraturas não consolidadas e em apenas 8,2% dos ossículos acessórios; o descontínuo, em 55,1% dos acessórios e em 4,6% das fraturas (p < 0,001) [11]. Com o critério estrito — só a relação contígua conta como fratura —, a AUC é de 0,821, com acurácia de 80,7%, sensibilidade de 72,3% e especificidade de 91,8%, a melhor especificidade do estudo [11]. Com o critério inclusivo, somando a relação aposta, a sensibilidade sobe para 95,4% e a especificidade cai para 55,1% [11].

Figura 27. Fratura-avulsão não consolidada em homem de 41 anos: radiografia, tomografia e ressonância.

Fonte: Xu N, Sun P, Zhang J, et al., Insights into Imaging, 2025, Figura 5. Licença: CC BY 4.0.

Figura 28. Os subfibulare em homem de 29 anos: radiografia, tomografia e ressonância — o caso-espelho da figura anterior.

Fonte: Xu N, Sun P, Zhang J, et al., Insights into Imaging, 2025, Figura 6. Licença: CC BY 4.0.

O tamanho do ossículo correlaciona-se com sintomas (p < 0,001), alinhado ao limiar de 9 mm proposto anteriormente [11]. E há uma limitação técnica que o próprio trabalho assume: o protocolo usou cortes de 4 mm, sujeitos a volume parcial, e os autores recomendam 3D-FSE para estudos futuros [11] — o que conecta esta seção à discussão de protocolo 3D acima.

 

Músculos acessórios e outras armadilhas anatômicas

R4 · especialista

Músculo acessório é isointenso ao músculo normal em todas as sequências, a menos que esteja lesado [19]. Essa frase evita o pior erro desse território, que é chamar variante de massa.

O fibular quarto tem prevalência de 5,2% a 22%, com 16% numa meta-análise de 46 estudos, e seu subtipo mais comum é o peroneocalcaneus externum, em 79% a 91% dos casos [19]. Ele se origina do fibular curto e pode congestionar o túnel peroneal, predispondo a tendinopatia e a luxação dos fibulares [19] — o que o liga diretamente à seção anterior.

O sóleo acessório tem prevalência de 0,7% a 5,5%, é bilateral em cerca de 15% dos casos e associa-se a tendinopatia de Aquiles em 69,2% [19]. A chave diferencial é a aponeurose profunda: o sóleo acessório é superficial a ela, enquanto o flexor longo dos dedos acessório (prevalência de 6% a 8%) é profundo, adjacente ao feixe neurovascular, e responde por 12% dos casos cirúrgicos de síndrome do túnel do tarso [19].

O peroneocalcaneus internus, com prevalência de 1%, fica lateral ao flexor longo do hálux e é separado do feixe neurovascular por ele — e é a armadilha cirúrgica do “falso flexor longo do hálux” na artroscopia do retropé [19].

As variantes ósseas seguem a mesma lógica de reconhecer em vez de investigar: o os trigonum, presente em cerca de 7% dos indivíduos [2], e o navicular acessório [28].

Figura 29. Impacto posterior do tornozelo por os trigonum em jogador de futebol.

Fonte: Gyftopoulos S, Woertler K, em Hodler J et al. (eds), Musculoskeletal Diseases 2021-2024, Springer, 2021, Figura 8.12. Licença: CC BY 4.0.

E a síndrome do seio do tarso, que ocorre em 70% dos casos após inversão [1], com cinco ligamentos no seio e o achado de obliteração da gordura por líquido, fibrose ou sinovite [1]. Em 79% dos casos de síndrome do seio do tarso há lesão ligamentar lateral associada [16].

 

Instabilidade crônica: o algoritmo

R4 · especialista

Entre 10% e 40% dos pacientes evoluem com dor ou instabilidade crônica após entorse [1]; outras fontes dão 5% a 70% [8], até 70% [16] e 10% a 40% especificamente para instabilidade [21]. A instabilidade funcional chega a 15% a 60% [1]. É a maior faixa de incerteza de todo este texto, e ela reflete definições diferentes de “instabilidade” entre os estudos.

O que muda na fase crônica é que a ressonância perde poder. Para a rotura crônica do LFTA a sensibilidade cai para 77% a 92%, e para o LFC fica em 88% a 92% [8]; em série comparativa, a ressonância convencional atinge 59% de sensibilidade para o LFTA e 63% para o LFC, contra 100% e 82% da artro-RM [1][16]. Num estudo multicêntrico de 157 pacientes, a artro-TC teve sensibilidade de 86% a 90% e especificidade de 67% a 83%, o ultrassom sensibilidade de 61% a 70% com especificidade de 86% a 80%, e a ressonância sensibilidade de 79% a 85% com especificidade de apenas 46% a 64% [8].

Figura 30. Desempenho da ressonância por estrutura ligamentar na dor crônica do tornozelo.

Fonte: esquema original a partir de ACR Appropriateness Criteria — Chronic Ankle Pain, Journal of the American College of Radiology, 2026. Licença: original.

O algoritmo que a base propõe é este: radiografia primeiro; se a radiografia estiver alterada com exame físico normal, tomografia ou ressonância; se o exame físico for incerto, radiografia sob estresse associada a ultrassom ou ressonância; se a decisão cirúrgica já estiver tomada, radiografia e ressonância; e, se a suspeita clínica persistir com ressonância pré-operatória normal, artro-TC ou artro-RM [5].

Figura 31. Sequência de exames proposta para a instabilidade crônica lateral do tornozelo.

Fonte: esquema original a partir de do Amaral e Castro A et al., Foot and Ankle Clinics of North America, 2023. Licença: original.

A radiografia sob estresse tem alta especificidade e baixa sensibilidade — 57% e até 100%, respectivamente —, o que significa que ela vale quando positiva e não exclui quando negativa; uma meta-análise citada dá 81% e 92% [5]. A gaveta anterior é considerada positiva acima de 10 mm, ou acima de 5 mm comparada ao contralateral; o talar tilt segue o mesmo par de limiares [5]. Numa enquete da ESSKA-AFAS com 30 cirurgiões, 87% pedem ressonância, 40% radiografia sob estresse e 10% ultrassom [5].

Dois critérios finos que valem conhecer. Os critérios de Hua, para ultrassom, validados contra artroscopia, definem cinco categorias: lesão (interrupção parcial ou total), laxidez (ligamento encurvado em inversão máxima com flexão plantar), espessamento (acima de 2,4 mm ou mais de 20% do contralateral), absorção (fibras não caracterizáveis) e não-união ou avulsão do maléolo lateral [5].

Há ainda a ressonância sob estresse, com corte de 43% de perda da área de contato fibulotalar, alcançando sensibilidade de 71% e especificidade de 80% [5].

No laudo: na instabilidade crônica, descreva o ligamento (espessado, afilado, alongado, ondulado, não caracterizado), diga se há sinal de gordura adjacente reduzido — sinal de fibrose — e liste as lesões associadas. Um laudo de instabilidade crônica sem a lista de lesões associadas está incompleto.

As lesões associadas que não podem faltar no laudo

R4 · especialista

Esta seção existe porque é a que mais muda a conduta e a que mais falta nos laudos.

Lesão osteocondral do tálus. Ocorre em 6% a 7% das lesões por inversão e está associada em até 50% das lesões esportivas [14]; em até 7% das entorses, com mais da metade invisível na radiografia [21]; 41% são perdidas na radiografia [8]. As mediais ficam no terço posterior e são profundas, em cratera; as laterais no terço anterior, rasas e largas [1]. O desempenho da ressonância é alto: sensibilidade e especificidade de 96% e 96% [8]; a tomografia tem 81% e 99% [8]. O sinal mais confiável de instabilidade do fragmento é a linha hiperintensa em T2 na interface [1] — ou, dito de outro modo, a rima de fluido [15].

Para localizar, use uma grade. O grid de Raikin divide o domo talar em nove zonas em uma matriz 3 × 3 [21], e é a linguagem que o cirurgião usa para planejar o acesso.

Figura 32. Localização das lesões osteocondrais do tálus pela grade de nove zonas.

Fonte: González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al., Cureus, 2025, Figura 17. Licença: CC BY 4.0.

As classificações disponíveis: Berndt e Harty, com modificação de Loomer, em estágios de I a IV ou V [1][14][21]; e uma escala de RM em cinco graus — 1 normal, 2 defeito parcial, 3 defeito de espessura total, 4 fragmento instável não deslocado, 5 fragmento deslocado [6]. Os critérios de De Smet para instabilidade exigem medidas mínimas de 5 mm [1].

Lesão da sindesmose associada a fratura. Já coberta na Parte 1; some a ela os números de lesão associada da sindesmose: LFTA em cerca de 64%, contusão óssea em 25%, lesão osteocondral do tálus em 28% e incongruência crônica em 33% [29].

Lesão do mediopé (Chopart e  Lisfranc). A entorse do mediopé é subdiagnosticada e responde por até 33% das entorses por inversão [16]. O diagnóstico de lesão de Lisfranc é perdido em até 35% dos casos, e a diástase maior que 2 mm na radiografia com carga é sugestiva [16][14][15].

Ligamento mola (spring). A ressonância tem sensibilidade de 54% a 77% com especificidade de 100% [16]; lesão associada em 11,1% das roturas do deltoide superficial [20].

Impacto. São cinco tipos — anterolateral, anterior, anteromedial, posteromedial e posterior [2]. O anterolateral surge em cerca de 3% após entorse [2]; a ressonância tem sensibilidade de 75% a 83% e especificidade de 75% a 100% contra a cirurgia, com a ressalva de que os achados também ocorrem em assintomáticos [8]. A artro-RM chega a 100% no impacto anterolateral clínico, mas traz pouca vantagem no impacto posterior [8].

Osteoartrose secundária. É muito mais comum que a primária, que fica abaixo de 1%; a latência entre a lesão e a artrose pode passar de 20 anos em até 40% dos casos [21], e a prevalência radiográfica chega a 24,7% [8].

No laudo: feche o laudo de entorse com uma linha sobre o domo talar, uma sobre a sindesmose e uma sobre o mediopé, mesmo que negativas. É o que transforma o laudo em documento clínico.

Artro-TC, artro-RM e a TC de contagem de fótons

R4 · especialista

Quando a ressonância não basta, a base indica dois caminhos.

Na lesão ligamentar crônica, a artro-RM recupera o desempenho perdido: 100% de sensibilidade para o LFTA e 82% para o LFC, contra 59% e 63% da ressonância convencional [1][16]. Para o flap condral, a artro-TC supera a ressonância com acurácia de 88,6% contra 57,1%; para a cartilagem talar em geral, a artro-RM fica em 76% a 88% e a artro-TC em 90% a 92% [8].

A tomografia por contagem de fótons é a novidade da revisão. Num estudo de viabilidade em quatro espécimes cadavéricos com oito tornozelos e sete avaliadores, todos os conjuntos de dados foram considerados de qualidade diagnóstica [23]. O achado que interessa ao dia a dia é contraintuitivo: a detecção óssea melhora com kernel mais nítido, mas a avaliação de cartilagem e de ligamento melhora com kernel de menor frequência espacial — mais suave —, em dose plena e em baixa dose (p ≤ 0,014) [23]. Mais ainda: o kernel mais suave em baixa dose igualou ou superou o kernel de ultra-alta resolução em dose plena na relação contraste-ruído para todos os tecidos [23]. As doses comparadas foram CTDIvol de 10 mGy e de 3 mGy [23]. A concordância foi excelente para osso (ICC 0,938), boa para cartilagem (0,887) e para ligamento (0,805) [23].

Figura 33. Ligamento tibiofibular posterior íntegro em artrotomografia por contagem de fótons, nos planos axial e coronal.

Fonte: Luetkens KS, Grunz JP, Kunz AS, et al., Diagnostics, 2023, Figura 2. Licença: CC BY 4.0.

As vantagens práticas sobre a ressonância, na leitura dos autores, são aquisição mais rápida, injeção guiada por ultrassom na própria sala e melhor avaliação do osso subcondral [23]. As limitações declaradas são igualmente claras: apenas quatro cadáveres, espécimes frescos-congelados, sem comparação direta com outras modalidades e sem avaliação de artefato de movimento [23].

Uma armadilha ensinada nesse mesmo trabalho e que vale para qualquer artrografia: o notch of Harty, pseudodefeito do platô tibial, diferencial de lesão osteocondral verdadeira [23].

E, para quem opera, o dado anatômico que fecha o ciclo: em RM 3D de 0,45 mm, a origem fibular do LFTA fica a 12,65 ± 2,08 mm da ponta da fíbula no tipo de feixe único, e a 13,43 ± 2,06 mm no feixe superior do tipo de dois feixes; a origem do LFC fica a 4,71 ± 1,04 mm da ponta da fíbula e sua inserção a 14,35 ± 2,22 mm do tubérculo dos fibulares [10]. O LFTA é de feixe único em 45,8% e de dois feixes em 54,2% das pessoas [10].

Figura 34. Distâncias entre os marcos ósseos e as ênteses do LFTA e do LFC, medidas em RM 3D de 0,45 mm (média ± desvio-padrão).

Fonte: esquema original a partir de Dai M et al., Insights into Imaging, 2024. Licença: original.

Figura 35. Vista lateral do tornozelo direito com os resultados das medidas obtidas nos voluntários — distâncias dos marcos ósseos às ênteses do LFTA e do LFC.

Fonte: Dai M, Zhao H, Sun P, et al., Insights into Imaging, 2024, Figura 6. Licença: CC BY 4.0.

 

O laudo: o que escrever

R4 · especialista

A revisão traz um guia de estruturação que vale adotar porque organiza a busca: percorra o exame em quatro áreas, nesta ordem — subcutâneo, osso e articulação, tendão, ligamento [28].

Dentro de cada área, use o vocabulário que o consenso de ultrassom padronizou, porque ele é o mesmo que o clínico lê: para tendão, tendinopatia, tenossinovite, paritendinite, rotura parcial, rotura completa e split longitudinal; para ligamento, as categorias gerais estiramento, lesão e alteração fibrocicatricial [25]. Para instabilidade tendínea, recomenda-se distinguir subluxação — parcial, possivelmente apenas dinâmica — de luxação, completa [25].

Três frases fecham um laudo de tornozelo pós-entorse e respondem ao que foi perguntado:

  • Qual ligamento, onde a descontinuidade está e se há fragmento avulsionado.
  • Se a mortise está congruente, com o número do espaço claro medial quando houver fratura.
  • O que há de associado: domo talar, sindesmose, mediopé, tendões fibulares.

No laudo: termine com uma frase que responda à pergunta clínica em vez de resumir os achados. “Rotura completa do LFTA na inserção fibular, sem avulsão óssea; LFC e LFTP íntegros; mortise congruente; sem lesão osteocondral” diz ao ortopedista tudo o que ele precisa em uma linha.

 

Pontos-chave

  • O complexo lateral responde por 60% a 85% das lesões ligamentares do tornozelo, e o LFTA por cerca de dois terços das lesões laterais [6][13][14][21][24].
  • A sequência de falha é LFTA → LFC → LFTP. LFC roto com LFTA íntegro pede revisão do exame [1][6][16].
  • Ligamento normal é escuro em todas as sequências; estriação por gordura, ângulo mágico e volume parcial são as três armadilhas que produzem rotura falsa [1][6].
  • Para o LFTA, o ultrassom tem sensibilidade de 96,9% contra 88,5% da ressonância, e é mais reprodutível entre serviços [24].
  • Rotura do deltoide superficial começa na origem, no maléolo medial, e o critério é descontinuidade focal ou descolamento da fascial sleeve. Edema de medula não é critério [20].
  • Em fratura do maléolo lateral, o espaço claro medial decide: acima de 5 mm ele próprio basta; abaixo de 5 mm, a ressonância supera o teste de estresse [9].
  • Na sindesmose, o LTFAI e o componente profundo do LTFPI respondem por 68% da estabilidade; rotura completa do LTFPI é preditor de instabilidade [29].
  • Aquisição 3D isotrópica com voxel de 0,45 a 0,6 mm eleva a sensibilidade para o LFTA de 84–86% para 96% e elimina o volume parcial [6][10][13].
  • Na rotura completa do LFTA, diga se o coto está na fíbula, no tálus ou na substância, e se há avulsão óssea — isso muda a técnica cirúrgica [17].
  • Para instabilidade fibular, o exame é o ultrassom dinâmico (100% contra 66% da ressonância), porque a ressonância é estática [26].
  • No ossículo subfibular, a relação entre ligamento e ossículo na RM — contígua, aposta ou descontínua — separa fratura não consolidada de variante [11].
  • Feche todo laudo de entorse comentando domo talar, sindesmose e mediopé, mesmo quando negativos [8][16][21].

 

Referências

  1. Narváez JA, Cerezal L, Narváez J. MRI of Sports-Related Injuries of the Foot and Ankle: Part 1. Current Problems in Diagnostic Radiology 2003;32:139-155. DOI 10.1016/S0363-0188(03)00015-X. Revisão narrativa. (1-s2.0-S036301880300015X-main.pdf)
  2. Narváez JA, Cerezal L, Narváez J. MRI of Sports-Related Injuries of the Foot and Ankle: Part 2. Current Problems in Diagnostic Radiology 2003;32:177-193. DOI 10.1016/S0363-0188(03)00044-6. Revisão narrativa. (1-s2.0-S0363018803000446-main.pdf)
  3. Gou X, Yi X, Wang Z, Zhang C, Yu J, Zheng G, Tao X. MRI-detected low-lying/hypertrophic muscle bellies and peroneal tendon dislocation. European Journal of Radiology 2025;191:112359. DOI 10.1016/j.ejrad.2025.112359. Caso-controle pareado, n = 66. (1-s2.0-S0720048X25004450-main.pdf)
  4. Shi X, Zhang H, Yuan Y, et al. Deep Learning-Enabled Ultrasound for LFTA Injuries Classification. Academic Radiology 2025;32:6044-6058. DOI 10.1016/j.acra.2025.07.013. Estudo de acurácia multicêntrico, n = 4.890. (1-s2.0-S1076633225006543-main.pdf)
  5. do Amaral e Castro A, Godoy-Santos AL, Taneja AK. Advanced Imaging in the Chronic Lateral Ankle Instability: An Algorithmic Approach. Foot and Ankle Clinics of North America 2023;28:265-282. DOI 10.1016/j.fcl.2022.12.005. Revisão narrativa. (1-s2.0-S108375152200153X-main.pdf)
  6. Fritz B, de Cesar Netto C, Fritz J. Multiaxial 3D MRI of the Ankle: Advanced High-Resolution Visualization of Ligaments, Tendons, and Articular Cartilage. Foot and Ankle Clinics of North America 2023;28:529-550. DOI 10.1016/j.fcl.2023.05.008. Revisão narrativa. (1-s2.0-S108375152300092X-main.pdf)
  7. Expert Panel on Musculoskeletal Imaging; Smith SE, et al. ACR Appropriateness Criteria® Acute Trauma to the Ankle. Journal of the American College of Radiology 2020;17:S355-S366. DOI 10.1016/j.jacr.2020.09.014. Diretriz. (1-s2.0-S1546144020309571-main.pdf)
  8. Expert Panel on Musculoskeletal Imaging; Schonberger A, et al. ACR Appropriateness Criteria® Chronic Ankle Pain: Update 2025. Journal of the American College of Radiology 2026;23:1335-1347. DOI 10.1016/j.jacr.2026.02.006. Diretriz. (1-s2.0-S1546144026000669-main.pdf)
  9. Warner SJ, Garner MR, Fabricant PD, Schottel PC, Loftus ML, Hentel KD, Helfet DL, Lorich DG. The Diagnostic Accuracy of Radiographs and MRI in Predicting Deltoid Ligament Ruptures in Ankle Fractures. HSS Journal 2019. DOI 10.1007/s11420-018-09655-x. Coorte prospectiva de acurácia, n = 79. (11420_2018_Article_9655.pdf)
  10. Dai M, Zhao H, Sun P, Wang J, Kong C, Liu X, Duan D, Liu X. Chronic ankle instability: a cadaveric anatomical and 3D high-resolution MRI study for surgical reconstruction procedures. Insights into Imaging 2024;15:249. DOI 10.1186/s13244-024-01824-3. CC BY 4.0. Estudo cadavérico + protocolo de RM, n = 5 cadáveres e 24 voluntários. (13244_2024_Article_1824.pdf)
  11. Xu N, Sun P, Zhang J, Tian K, Gao Q, Li XS. Enhanced subfibular ossicle diagnosis: CT-MRI integration of morphology and ligament attachments. Insights into Imaging 2025;16:252. DOI 10.1186/s13244-025-02138-8. CC BY 4.0. Coorte retrospectiva de acurácia, n = 114 ossículos. (13244_2025_Article_2138.pdf)
  12. Foreman SC, Neumann J, Han J, et al. Deep learning based acceleration of Compressed Sense MR imaging of the ankle. European Radiology 2022;32:8376-8385. DOI 10.1007/s00330-022-08919-9. CC BY 4.0. Validação prospectiva de técnica, n = 30. (330_2022_Article_8919.pdf)
  13. Bajaj S, Chhabra A, Taneja AK. 3D isotropic MRI of ankle: review of literature with comparison to 2D MRI. Skeletal Radiology 2024;53(4):825-846. DOI 10.1007/s00256-023-04513-2. Revisão narrativa. (3D-isotropic-MRI-of-ankle-review-of-literature-with-comparison-to-2D-MRI.pdf)
  14. Gyftopoulos S, Woertler K. Ankle and Foot. Em: Hodler J, et al. (eds). Musculoskeletal Diseases 2021-2024 (IDKD Springer Series). Springer, 2021:107-120. DOI 10.1007/978-3-030-71281-5_8. CC BY 4.0. Capítulo de livro. (978-3-030-71281-5_8.pdf)
  15. Grainger AJ, Zanetti M. The Ankle and Foot. Em: Hodler J, et al. (eds). Musculoskeletal Diseases 2026-2029 (IDKD Springer Series). Springer, 2026:81-96. DOI 10.1007/978-3-032-17040-8_8. CC BY-NC-ND 4.0. Capítulo de livro. (978-3-032-17040-8_8.pdf)
  16. Beltran LS, Zuluaga N, Verbitskiy A, Bencardino JT. Imaging of Acute Ankle and Foot Sprains. Radiologic Clinics of North America 2023;61(2):319-344. DOI 10.1016/j.rcl.2022.10.015. Revisão narrativa. (Imaging-of-Acute-Ankle-and-Foot-Sprains.pdf)
  17. Ni M, Chen W, Zhao Q, Zhao Y, Yuan H. Deep Learning Approach for MRI in the Classification of Anterior Fibulotalar Ligament Injuries. Journal of Magnetic Resonance Imaging 2023;58(5):1544-1556. DOI 10.1002/jmri.28649. Estudo de acurácia, n = 1.073 + 167. (Magnetic Resonance Imaging – 2023 – Ni.pdf)
  18. Billone LM, Allred SJ, Flores DV. US of Acute Tendon Tears. RadioGraphics 2024;44(12):e240060. DOI 10.1148/rg.240060. Revisão pictórica. Licença não localizada no PDF [VERIFICAR]. (billone-et-al-2024-us-of-acute-tendon-tears.pdf)
  19. Cheung Y. Normal Variants: Accessory Muscles About the Ankle. Magnetic Resonance Imaging Clinics of North America 2017;25(1):11-26. DOI 10.1016/j.mric.2016.08.002. Revisão narrativa. (cheung2017.pdf)
  20. Crim J, Longenecker LG. MRI and Surgical Findings in Deltoid Ligament Tears. AJR American Journal of Roentgenology 2015;204(1):W63-W69. DOI 10.2214/AJR.13.11702. Coorte com correlação cirúrgica, n = 88. (crim2015.pdf)
  21. González-Gutiérrez O, Roldan-Valadez E, et al. Imaging Anatomy of the Ankle in Normal and Pathological States: A Clinically Focused Pictorial Review. Cureus 2025;17(10):e93882. DOI 10.7759/cureus.93882. CC BY 4.0. Revisão pictórica. (cureus-0017-00000093882.pdf)
  22. Delahunt E, Bleakley CM, et al. Clinical assessment of acute lateral ankle sprain injuries (ROAST): 2019 consensus statement of the International Ankle Consortium. British Journal of Sports Medicine 2018;52:1304-1310. DOI 10.1136/bjsports-2017-098885. Consenso Delphi, n = 14 especialistas. (delahunt2018.pdf)
  23. Luetkens KS, Grunz JP, Kunz AS, Huflage H, et al. Ultra-High-Resolution Photon-Counting Detector CT Arthrography of the Ankle: A Feasibility Study. Diagnostics 2023;13(13):2201. DOI 10.3390/diagnostics13132201. CC BY 4.0. Estudo cadavérico de viabilidade, n = 8 tornozelos. (diagnostics-13-02201.pdf)
  24. Colò G, Bignotti B, Costa G, Signori A, Tagliafico AS. Ultrasound or MRI in the Evaluation of Anterior Fibulotalar Ligament (LFTA) Injuries: Systematic Review and Meta-Analysis. Diagnostics 2023;13(14):2324. DOI 10.3390/diagnostics13142324. CC BY 4.0. Revisão sistemática e meta-análise, 9 estudos. (diagnostics-13-02324.pdf)
  25. Hall MM, et al. Recommended Musculoskeletal and Sports Ultrasound Terminology: A Delphi-Based Consensus Statement. Journal of Ultrasound in Medicine 2022;41:2395-2412. DOI 10.1002/jum.15947. Consenso Delphi, n = 18 especialistas. Licença em conflito no PDF [VERIFICAR]. (hall2022.pdf)
  26. Melville DM, et al. Comparison of Ultrasound and MRI with Intraoperative Findings in the Diagnosis of Peroneal Tendinopathy, Tears, and Subluxation. Journal of Clinical Medicine 2024;13(3):740. DOI 10.3390/jcm13030740. CC BY 4.0. Estudo de acurácia com correlação cirúrgica, n = 21. (jcm-13-00740.pdf)
  27. Myerson MS, et al. Classification and Nomenclature: Progressive Collapsing Foot Deformity. Foot & Ankle International 2020. DOI 10.1177/1071100720950722. Consenso, n = 9 delegados. Licença não explícita no PDF [VERIFICAR]. (myerson2020.pdf)
  28. Antonio GE, Griffith JF. How to Report: Ankle MRI. Seminars in Musculoskeletal Radiology 2021;25:700-708. DOI 10.1055/s-0041-1736191. Guia de laudo. (s-0041-1736191.pdf)
  29. da Silva LNM, et al. Distal Tibiofibular Syndesmosis: Anatomy, Biomechanics, Imaging Approach, and Postoperative Evaluation. RadioGraphics 2026;46(2):e250065. DOI 10.1148/rg.250065. Revisão pictórica. (silva-et-al-2026-distal-tibiofibular-syndesmosis.pdf)

Sobre as figuras. As 27 figuras de artigo reproduzidas neste texto vêm das referências [10], [11], [14], [21], [23] e [26], todas publicadas sob licença CC BY 4.0, que permite reprodução com atribuição. Os 8 diagramas são esquemas originais construídos a partir dos dados numéricos das referências indicadas em cada legenda. Nenhuma figura deste documento depende de autorização adicional para publicação.

Deixe um comentário