Em resumo
Um estudo retrospectivo avaliou 278 lesões vertebrais incidentais, indeterminadas e com baixo sinal em T1, sem sinais francos de agressividade. Apenas 58% tiveram seguimento de imagem por pelo menos dois meses.
Entre as lesões acompanhadas, três — aproximadamente 2% — foram malignas. Todas ocorreram em pacientes com doença metastática conhecida ou diagnosticada concomitantemente.
- O contexto oncológico teve maior peso que o sinal isolado.
- Hipersinal em STIR não diferenciou adequadamente lesões benignas e malignas.
- Nenhuma neoplasia óssea maligna primária foi identificada.
- Na preocupação elevada com metástase, os autores consideram razoável um controle em 6 a 12 semanas.
- Em pacientes de baixo risco e sem sinais agressivos, o seguimento pode não ser necessário.
Limitação: 42% das lesões não tiveram seguimento mínimo.
Lesões vertebrais focais com baixo sinal em T1 são frequentemente encontradas em exames de RM da coluna. Na ausência de características típicas de benignidade, esses achados costumam ser classificados como indeterminados e podem desencadear recomendações de controle, investigação sistêmica ou biópsia.
Entretanto, o baixo sinal em T1 não é, isoladamente, um marcador de malignidade. Sua interpretação depende da morfologia, das demais sequências, dos sinais de agressividade e, principalmente, do contexto clínico-oncológico.
O estudo
Barkovich e colaboradores realizaram um estudo retrospectivo de pacientes submetidos à RM da coluna entre 2017 e 2025. Foram inicialmente revisados 538 exames nos quais uma lesão óssea havia sido descrita como “indeterminada”. Após os critérios de inclusão e exclusão, permaneceram 278 lesões vertebrais.
Foram excluídos pacientes com metástases ósseas previamente conhecidas e exames incompletos. Apenas 58% das lesões tiveram acompanhamento de imagem por pelo menos dois meses.
Principais resultados
Entre as lesões acompanhadas:
- 55% permaneceram estáveis por pelo menos dois anos;
- 33% permaneceram inalteradas entre dois e 24 meses;
- 10% foram caracterizadas como tipicamente benignas ou degenerativas em exames posteriores;
- três lesões, aproximadamente 2%, eram malignas.
As três malignidades correspondiam a novas metástases ósseas em pacientes com doença metastática conhecida ou diagnosticada concomitantemente. Não foi identificada nenhuma neoplasia óssea maligna primária.
Uma correção importante do denominador
A afirmação “2% das 278 lesões eram malignas” não é precisa. Como somente 58% tiveram acompanhamento mínimo, o percentual de aproximadamente 2% refere-se às lesões acompanhadas.
Considerando todas as 278 lesões incluídas, três casos correspondem a cerca de 1%, mas esse cálculo também é limitado porque 42% não tiveram seguimento suficiente. O estudo sustenta uma baixa frequência de malignidade entre as lesões acompanhadas, mas não comprova benignidade em toda a amostra.
O sinal em T1 deve ser interpretado em relação a quê?
As lesões foram selecionadas por apresentarem baixo sinal em T1 em relação à medula óssea normal. Quando comparadas ao músculo esquelético, 61% eram isointensas, 34% eram hiperintensas e 5% eram hipointensas.
Todas as lesões malignas eram isointensas ao músculo em T1 e hiperintensas em STIR em relação à medula. A expressão “hipointensa em T1” depende, portanto, da estrutura utilizada como referência. O hipersinal em STIR, isoladamente, não permite diferenciar adequadamente uma lesão benigna de uma metástase.
O peso do contexto clínico
O principal fator associado à malignidade foi a presença de doença metastática extraóssea conhecida ou identificada concomitantemente. Nenhuma lesão maligna foi encontrada em pacientes sem história de neoplasia ou com antecedente de câncer sem doença metastática.
Isso não significa que a malignidade possa ser excluída apenas pela história clínica. O resultado indica que a probabilidade pré-teste deve fazer parte da interpretação e da recomendação de seguimento.
Sinais de agressividade
Os resultados se aplicam a lesões indeterminadas sem características francamente agressivas. Destruição cortical, massa de partes moles, colapso vertebral patológico, progressão documentada ou múltiplas lesões suspeitas modificam substancialmente o raciocínio.
Quando considerar o seguimento?
Os autores questionam a aplicação direta dos intervalos do Bone-RADS às lesões da coluna. Quando existe preocupação elevada com metástase, um controle em 6 a 12 semanas pode ser mais útil que um intervalo prolongado.
Em pacientes de baixo risco, sem sinais agressivos e sem doença metastática conhecida, os autores admitem que o seguimento possa não ser necessário. Essa proposta deve ser individualizada e não constitui uma regra universal.
Limitações
- desenho retrospectivo;
- seleção dos casos pela presença do termo “indeterminado” no laudo;
- ausência de seguimento mínimo em 42% das lesões;
- possível perda de lesões descritas com outra terminologia;
- número muito pequeno de casos malignos;
- população proveniente de uma única instituição.
A ausência de diagnóstico posterior de malignidade não equivale, necessariamente, à comprovação de benignidade.
Uma lesão vertebral focal com baixo sinal em T1 e sem sinais agressivos não deve ser interpretada automaticamente como suspeita de malignidade. O contexto clínico-oncológico parece ter maior valor que o hipersinal em STIR isolado.
Referência
- Barkovich EJ, Mehan WA, Buch K. Indeterminate T1-Hypointense Spine Lesions: Prevalence of Malignancy in the Absence of Aggressive Imaging Features. AJNR American Journal of Neuroradiology. 2026;47:1731–1736. DOI: 10.3174/ajnr.A9180.

Deixe uma resposta