

A meralgia parestésica é uma neuropatia exclusivamente sensitiva do nervo cutâneo femoral lateral (NCFL), geralmente relacionada à compressão na saída da pelve, perto da espinha ilíaca ântero-superior (EIAS) e do ligamento inguinal. Produz dor em queimação, parestesias ou hipoestesia na face anterolateral da coxa, sem fraqueza muscular causada pelo NCFL. O diagnóstico é principalmente clínico; a imagem ajuda quando a apresentação é atípica, há suspeita de lesão estrutural ou se planeja uma intervenção.
Anatomia e mecanismos
O NCFL deriva habitualmente de L2–L3, cruza o músculo ilíaco e alcança a coxa junto à EIAS. Seu trajeto nessa região é variável: pode passar sob ou através do ligamento inguinal e assumir posição mais lateral ou superficial. Uma metanálise de 18 estudos e 1.512 nervos encontrou, nos membros com meralgia, trajeto mais próximo da EIAS, maior frequência de saída lateral ou sobre a EIAS e maior área seccional ao US. São associações anatômicas, não critérios diagnósticos isolados. Obesidade, roupas apertadas, gestação e procedimentos na pelve ou no quadril também podem contribuir. Johnson et al.
Qual exame solicitar?
| Situação | Exame mais útil |
|---|---|
| Quadro clínico típico, sem sinais de outra doença | Em geral, não é necessária imagem do nervo. |
| Dúvida diagnóstica ou planejamento de bloqueio | US de alta resolução, com rastreamento do NCFL e comparação contralateral. |
| Suspeita de lesão profunda, massa, complicação pós-operatória ou sintomas fora do território do NCFL | RM dirigida ou neurografia por RM, com cobertura definida pela hipótese clínica. |
O US permite examinar diretamente o pequeno nervo superficial, identificar variantes e guiar a agulha. A RM acrescenta avaliação dos segmentos profundos e das causas extrínsecas. Em uma série retrospectiva de 50 pacientes com suspeita clínica, o US mostrou alterações sugestivas em 70%; em 20%, foi negativo, e em 10%, o nervo não foi identificado. Portanto, um exame negativo ou tecnicamente limitado não exclui a síndrome. Powell et al.
O que procurar nas imagens
No US: rastrear o NCFL ao longo do trajeto, em vez de examinar apenas um ponto na EIAS. O intervalo entre sartório e tensor da fáscia lata pode ajudar a identificá-lo distalmente e acompanhá-lo em direção proximal. Os achados descritos são aumento focal do calibre ou da área seccional, mudança abrupta de calibre, hipoecogenicidade com perda da definição fascicular, vascularização intraneural e eventual causa focal, como fibrose ou tumor do nervo. Comparar com o lado assintomático e documentar o nível exato da alteração aumenta a utilidade do exame. Shi et al.
Na RM dirigida: procurar espessamento e hipersinal do NCFL nas sequências sensíveis a líquido, assim como compressão, fibrose ou massa ao longo do trajeto. A neurografia em 3 T usa sequências de alta resolução com supressão de gordura e pode demonstrar o nervo próximo à EIAS. A acurácia diagnóstica de pelo menos 90% citada na literatura vem de um estudo específico de neurografia em 3 T; não deve ser extrapolada à RM convencional do quadril. Como o NCFL é sensitivo, não se espera edema de desnervação muscular por uma lesão isolada dele. Chhabra et al.

Diferenciais e armadilhas
- Radiculopatia ou plexopatia lombar: considerar especialmente diante de fraqueza, alteração de reflexos ou sintomas que ultrapassem o território cutâneo esperado. Uma alteração degenerativa lombar incidental não demonstra, por si só, a causa dos sintomas.
- Doença do quadril, lesão pélvica ou massa ao longo do nervo: investigar conforme o exame clínico e o contexto, sobretudo em apresentação progressiva ou atípica.
- Variante de trajeto ou bifurcação precoce: pode fazer o nervo parecer ausente no local habitual ou levar à avaliação de apenas um ramo.
- US ou RM sem alteração visível: não afastam meralgia parestésica clinicamente típica. Em uma série com US positivo, houve concordância descrita no laudo de RM em apenas 4 dos 16 pacientes que também haviam feito RM; os exames e protocolos daquela série não equivalem necessariamente à neurografia dedicada. Powell et al.
O que incluir no laudo dirigido
Descrever lado e segmento examinado, visualização e trajeto do NCFL, local da alteração de calibre ou sinal, área seccional com nível de medida quando obtida, comparação contralateral e eventual causa focal. Se houver indicação de bloqueio, informar o trajeto e a variante anatômica relevantes para o acesso. Quando o nervo não puder ser identificado adequadamente, declarar essa limitação. A conclusão deve relacionar o achado à suspeita clínica, sem transformar espessamento isolado em diagnóstico definitivo.
Pontos-chave para o radiologista
- Pense no NCFL junto à EIAS, mas siga o nervo: seu trajeto varia.
- A meralgia parestésica causa sintomas sensitivos; fraqueza exige outra explicação.
- No US, mudança focal de calibre e alteração fascicular são tão relevantes quanto a medida da área.
- 2,65 mm² é um limiar de um estudo, não uma regra universal.
- RM convencional negativa não equivale a neurografia dedicada negativa.
- Procure e relate lesão compressiva, fibrose ou massa, sobretudo em casos atípicos ou pós-operatórios.
- A comparação contralateral ajuda, mas deve ser interpretada com a clínica.
Referências essenciais
- Chianca V, et al. Meralgia paresthetica: from qualitative ultrasound assessment to quantitative multimodality imaging. J Ultrason. 2026. DOI: 10.15557/jou.2026.0010.
- Becciolini M, Pivec C, Riegler G. Ultrasound of the Lateral Femoral Cutaneous Nerve: A Review of the Literature and Pictorial Essay. J Ultrasound Med. 2022. DOI: 10.1002/jum.15809.
- Powell GM, et al. Sonographic evaluation of the lateral femoral cutaneous nerve in meralgia paresthetica. Skeletal Radiol. 2020. DOI: 10.1007/s00256-020-03399-8.
- Shi X, et al. Sonographic features of the lateral femoral cutaneous nerve in meralgia paresthetica. Quant Imaging Med Surg. 2021. DOI: 10.21037/qims-21-209.
- Johnson JM, et al. Comparing the Anatomy of the Lateral Femoral Cutaneous Nerve in Patients With and Without Meralgia Paresthetica: A Systematic Review and Meta-Analysis. Clin Anat. 2025. DOI: 10.1002/ca.24273.
- Chhabra A, et al. Meralgia paresthetica: 3-Tesla magnetic resonance neurography. Skeletal Radiol. 2013. PubMed.
- Pitman J, Lin Y, Tan ET, Sneag DB. MR Neurography of the Lumbosacral Plexus: Technique and Disease Patterns. RadioGraphics. 2025. DOI: 10.1148/rg.240099.
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