Por que o protocolo de rotina de ombro falha no diagnóstico e quais ajustes de FOV e posicionamento salvam o exame.
jul 05, 2026
Um dos maiores motivos de reconvocação e de falsos-negativos em exames de ombro na prática clínica é a lesão oculta do peitoral maior. Se o paciente chega com uma queixa inespecífica de dor anterior no ombro e a equipe técnica aplica apenas o protocolo padrão estrito, a inserção do peitoral maior ficará fora das imagens ou cortada pela metade.
Deixar passar uma rotura do peitoral maior pode mudar completamente o desfecho do paciente, transformando uma indicação cirúrgica clara em um tratamento conservador inadequado que evoluirá com assimetria estética e perda de força crônica.
Nos casos agudos com indicação cirúrgica, a mesma deve idealmente ser feita nas primeiras quatro semanas da lesão (uma “urgência” ortopédica relativa. Isto ocorre pois se passando muito tempo, ocorrem aderências, fibrose e “perda” do coto tendíneo, o que causa dificuldade para o cirurgião.
O Limiar do Erro: Por que o Protocolo Padrão Falha?
O protocolo convencional de RM de ombro é desenhado para avaliar o manguito rotador (supraespinal, infraespinal e subescapular) e a articulação glenoumeral.
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O tendão do peitoral maior insere-se mais abaixo, na diáfise umeral proximal (crista do tubérculo maior). Se o seu limite inferior de corte terminar logo abaixo da articulação, você cortará a zona de avulsão do peitoral maior, impossibilitando o diagnóstico.
A dica é sempre analisar as imagens axiais mais inferiores, pois frequentemente conseguimos identificar ao menos o segmento mais superior do tendão do peitoral, que tem íntima relação com o tendão do bíceps. Num exame normal o tendão do bíceps se encontra próximo à cortical umeral anterior. Nos casos de lesão do peitoral verificamos um afastamento do bíceps, com edema e líquido interposto entre o umero e o bíceps (lesão do peitoral com retração).



Como Ajustar o Protocolo na Mesa de Comando
Se o histórico do paciente apontar dor anterior aguda após levantamento de peso (como supino) ou se você notar um hematoma visível na parede anterior do tórax ou na axila durante o posicionamento, mude a estratégia imediatamente:
- Aumentar o numero de cortes inferiormente:
- Mantenha a bobina de ombro bem posicionada, mas garanta que o planejamento das sequências Axiais e Coronais estenda-se de 3 a 5 centímetros abaixo da pegada convencional do ombro, cobrindo até o terço proximal da diáfise umeral.
- O Plano Axial é o Rei:
- A anatomia bilaminar do peitoral maior e a sua inserção no úmero são mais bem demonstradas no plano axial. Certifique-se de que os cortes axiais cubram desde a articulação acromioclavicular até a transição miotendínea do peitoral na parede torácica anterior. Se necessário aumente o FOV para incluir o tendão rompido e retraído.
- Atenção Redobrada à Supressão de Gordura (FatSat):
- Lesões musculares agudas geram muito edema e hematoma. Sequências como o Coronal e Axial DP/T2 com Supressão de Gordura precisam de homogeneidade perfeita. Como a parede torácica é uma região de transição anatômica brusca, utilize bobinas adequadas e coloque shims de volume centralizados para evitar falhas crônicas de saturação nas bordas do tórax, que simulam ou escondem patologias.
- Uso de Marcador de Superfície:
- Se o paciente apontar com precisão o ponto de maior dor na parede torácica anterior ou na dobra axilar, posicione um pequeno marcador de vitamina E ou gel sobre a pele. Isso orienta o médico na sala de laudos a direcionar a atenção milimétrica para aquela série de cortes.
A radiologia musculoesquelética de alta performance exige o protocolo certo, para a suspeita certa, no paciente certo. Quando a equipe técnica atua de forma proativa na mesa de comando, ela não apenas evita uma reconvocação desnecessária, mas define o sucesso do tratamento do paciente.

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