Segunda-feira de manhã, a lista de trabalho chega com três ressonâncias de coxa de jogadores que sentiram “uma fisgada” no fim de semana. O clube quer saber se o atleta joga no domingo. O laudo que diz apenas “estiramento muscular grau 2” não ajuda ninguém: não diz onde está a lesão, que tecido rompeu, nem o que isso significa para o retorno. É exatamente essa a lacuna que este texto quer fechar.
Lesão muscular é a lesão mais comum no esporte, e a imagem tem papel crescente no manejo dela, sobretudo no atleta de alto nível [3][17]. O erro mais frequente de quem começa não é deixar de ver a lesão. É descrevê-la mal: confundir edema com ruptura, ignorar o tendão intramuscular, dar grau alto para um sinal que não é lesão, ou prometer ao clube um prazo que a imagem não sustenta.
No fim, você deve conseguir definir o exame certo na hora certa, reconhecer os padrões de lesão na ressonância e no ultrassom, aplicar as classificações que os clubes usam e escrever um laudo que responda à pergunta de quem pediu — sabendo também o que a imagem não consegue prever.
Como ler este texto. A Parte 1 monta o assunto do zero, com etiquetas indicando em que momento da residência cada bloco costuma ser cobrado. A Parte 2 é para R4 e radiologista MSK.
O que você vai levar daqui
- Localizar a lesão muscular no esqueleto de tecido conjuntivo do músculo — junção miofascial, junção miotendínea e tendão intramuscular — e explicar por que isso muda o prognóstico.
- Escolher entre ultrassom e ressonância, e o momento de cada um, para o cenário clínico que chega.
- Diferenciar, na ressonância, edema sem ruptura, ruptura parcial, ruptura completa e os simuladores (DOMS, edema pós-exercício, ERSA).
- Aplicar a BAMIC e reconhecer as diferenças entre ela, a classificação de Munique e a FC Barcelona-Aspetar-Duke.
- Descrever as fases da cicatrização na ressonância e os sinais que sugerem risco de nova lesão.
Parte 1 — Iniciando o assunto (R1 a R3)
Por que este assunto está em toda lista de trabalho
R1 · base
Quanto do esporte é lesão muscular? Muito. No futebol de elite, lesões musculares respondem por 31% de todas as lesões; 37% dos jogadores perdem treino ou jogo por uma delas a cada temporada, e uma equipe de 25 atletas soma cerca de 15 lesões musculares por temporada [18]. No atletismo, chegam a 48% das lesões em competição [12]. Estimativas gerais ficam em torno de 40% das lesões no futebol e no atletismo e 20% em outros esportes [17].
Quatro grupos concentram o problema. No futebol, isquiotibiais, adutores, quadríceps e panturrilha somam 92% das lesões musculares [18]. Mais de 90% de todas as lesões musculares estão no membro inferior [2]. A Figura abaixo mostra a distribuição.

Figura 1. Distribuição das lesões musculares no futebol de elite pelos quatro grupos mais acometidos.
Fonte: esquema original a partir de Mueller-Wohlfahrt et al., Br J Sports Med, 2013 (texto). Licença: original.
Por que esses músculos? Os artigos convergem em três características: músculos que cruzam duas articulações (biarticulares), com alta proporção de fibras de contração rápida (tipo II) e que trabalham em contração excêntrica — contraindo enquanto são alongados [2][15][17]. O reto femoral no chute e o bíceps femoral no sprint são os exemplos clássicos [2].
A recidiva é o outro motivo de atenção. No futebol de elite, 16% das lesões musculares são recidivas, com afastamento 30% maior que a lesão original [18]. Lesão prévia no mesmo músculo é o fator de risco mais consistente para nova lesão [10][14][17]. Um retorno precoce, baseado numa lesão subestimada, é causa plausível dessas recidivas [18].
No laudo, isso se traduz numa exigência simples: nomear o músculo específico, não o grupo. “Lesão dos isquiotibiais” é pouco; “lesão da junção miotendínea proximal da cabeça longa do bíceps femoral” é o que o clube precisa.
A anatomia que decide o prognóstico
R1 · base
O que exatamente rompe quando um músculo “estira”? Para responder, você precisa enxergar o músculo como fibras musculares presas a um esqueleto de tecido conjuntivo. Cada fibra é envolvida pelo endomísio; grupos de fibras formam fascículos, envolvidos pelo perimísio; o músculo inteiro é envolvido pelo epimísio [13][17]. Essas camadas são contínuas e formam os tendões nas inserções [9].
Dentro do ventre, o conjuntivo não é só embalagem. Tendões intramusculares, aponeuroses, septos e fáscias transmitem força, e a distribuição deles varia de músculo para músculo conforme a função [3]. Tendão e aponeurose cicatrizam mais devagar que a fibra muscular, e é por isso que o estado do conjuntivo pode determinar o tempo de recuperação [23].
As lesões indiretas se concentram nas interfaces entre fibra muscular e conjuntivo. Teh e Rubin nomeiam três locais principais: a junção entre músculo e fáscia (junção miofascial, periférica), a junção entre músculo e tendão principal (junção miotendínea principal) e a junção em torno do tendão intramuscular (junção miotendínea central) [9]. Isern-Kebschull e colaboradores agrupam as duas últimas sob o nome junção mioconjuntiva (myoconnective junction) [3]. A Figura abaixo mostra esses pontos no eixo músculo-tendão-osso.

Figura 2. Eixo músculo-tendão-osso e os locais de lesão: junção tendão-osso, junção miotendínea principal, junção miotendínea central (em torno do tendão intramuscular), junção miofascial e ventre.
Fonte: Teh & Rubin, IDKD Springer, 2026, Fig. 16.1. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
A idade muda o elo fraco. No esqueleto imaturo, a apófise não fundida cede antes — a lesão típica é a avulsão apofisária. No adulto jovem e de meia-idade, cede a junção miotendínea. No idoso, o tendão, muitas vezes já degenerado [2][3][9].
Cada músculo tem o seu desenho de conjuntivo, e vale olhar os três mais cobrados. Nos isquiotibiais, a cabeça longa do bíceps femoral e o semitendíneo nascem por um tendão conjunto na tuberosidade isquiática; o semimembranoso tem origem separada, anterolateral [3]. No reto femoral, os tendões direto e indireto se fundem num tendão curto, e o tendão indireto continua dentro do ventre como septo central [3]. No sóleo, há fascículos medial e lateral, septo central e aponeurose posterior, com grande variação individual [3].

Figura 3. Distribuição do tecido conjuntivo nos isquiotibiais: tendão comum proximal da cabeça longa do bíceps e do semitendíneo, rafe do semitendíneo, junção miotendínea distal do bíceps com seus zíperes profundo e superficial, e regiões A, B e C do semimembranoso.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 1. Licença: CC BY 4.0.

Figura 4. Tecido conjuntivo do reto femoral: tendões direto e indireto, septo central (continuação do tendão indireto), aponeurose e fáscia anteriores, aponeurose e fáscia posteriores.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 2. Licença: CC BY 4.0.

Figura 5. Tecido conjuntivo do sóleo: fascículos medial e lateral, septo central e aponeurose posterior.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 3. Licença: CC BY 4.0.
Repare nas três figuras que a lesão pode estar na periferia (fáscia, aponeurose) ou no centro (septo, tendão intramuscular). Essa distinção vai reaparecer em toda classificação e em quase todo dado de prognóstico. No laudo, ela vira uma frase obrigatória: em que estrutura de conjuntivo a lesão está ancorada.
Direta ou indireta: dois mecanismos, duas lesões
R1 · base
O atleta levou uma pancada ou sentiu a dor sozinho? A pergunta separa as duas grandes famílias. A lesão indireta, sem contato, ocorre quando a carga excede a capacidade do tecido, quase sempre em contração excêntrica [17]. É responsável por cerca de 96% das lesões musculares no futebol [18]. A lesão direta resulta de contato — contusão por trauma contuso ou laceração por trauma penetrante [13][17].
A contusão tem comportamento próprio. Fica mais em músculos junto ao osso, como o vasto intermédio sobre a diáfise femoral, e costuma produzir edema do subcutâneo adjacente [3]. O atleta muitas vezes continua jogando [18]. Contusões cicatrizam mais rápido que as lesões por estiramento, com retorno frequente em cerca de uma semana [2][9]. A Figura mostra o aspecto típico: edema “em pena” em torno de um hematoma no vasto intermédio.

Figura 6. Contusão por trauma direto: STIR coronal (a) e axial (b) com edema em pena ao redor de hematoma no vasto intermédio.
Fonte: Thierfelder et al., Insights into Imaging, 2019, Fig. 1. Licença: CC BY 4.0.
Uma observação de terminologia antes de seguir. Munique recomenda abandonar “strain” (estiramento), por ser termo biomecânico usado de forma indiscriminada, e usar “ruptura” (tear) para lesões com dano estrutural [18]. A BAMIC segue a mesma linha [12]. Outros artigos da base ainda usam “strain” como sinônimo de lesão indireta [15][19]. No laudo, prefira “lesão muscular” como termo geral e “ruptura” quando houver dano estrutural visível.
Ultrassom: técnica e anatomia normal
R1–R2
Como fazer um ultrassom de músculo que responda alguma coisa? O transdutor é linear de alta frequência para músculos superficiais — faixas citadas de 10 a 22 MHz — e linear de menor frequência ou convexo para músculos profundos e pacientes musculosos [13][21]. O campo de visão estendido (panorâmico) ajuda a medir lesões longas [13][21].
A rotina começa na região sintomática, em transversal e depois longitudinal, e percorre o músculo da origem à inserção: ênteses, junção miotendínea, epimísio, septos e fáscia [13][21]. A comparação com o lado contralateral é essencial para lesões pequenas [8][13]. Pressão excessiva do transdutor pode comprimir um hematoma liquefeito e escondê-lo [8].
O músculo normal tem assinatura própria. No eixo longo, bandas hipoecoicas de fibras alternam com linhas ecogênicas do perimísio, num padrão de “nervuras de folha”; no eixo curto, fundo hipoecoico com pontos ecogênicos, o “céu estrelado” [13][21]. Veja as duas imagens do gastrocnêmio medial.

Figura 7. Ultrassom normal do gastrocnêmio medial no eixo longo: fibras hipoecoicas alternando com linhas ecogênicas do perimísio (padrão em nervuras de folha).
Fonte: Paoletta et al., Medicina, 2021, Figure 1. Licença: CC BY 4.0.

Figura 8. Ultrassom normal do gastrocnêmio medial no eixo curto: fundo hipoecoico com pontos ecogênicos (padrão em céu estrelado).
Fonte: Paoletta et al., Medicina, 2021, Figure 2. Licença: CC BY 4.0.
A principal armadilha é a anisotropia: o tendão e o músculo ficam hipoecoicos quando o feixe não está perpendicular e simulam lesão [13][15]. Um vaso intramuscular proeminente também pode imitar defeito estrutural — o Doppler ou seguir o vaso resolve [15].
O exame dinâmico acrescenta o que a imagem parada não mostra. Na contração, o músculo normal move as fibras de forma sincrônica; na lesão, há movimento assincrônico e separação das fibras (diástase) [13]. É também o único modo confiável de ver hérnia muscular, que pode sumir em repouso [2][15].
Para os isquiotibiais, Balius e colaboradores propõem um mapa em quatro áreas, o “diapasão invertido”: cabo (origem na tuberosidade), curva (metade proximal), braço medial (semitendíneo e semimembranoso) e braço lateral (as duas cabeças do bíceps) [5].

Figura 9. Os isquiotibiais como um diapasão invertido: cabo (origem), curva (metade proximal), braço medial (semitendíneo e semimembranoso) e braço lateral (cabeças do bíceps), com estruturas e marcos de cada área.
Fonte: Balius et al., Skeletal Radiology, 2019, Fig. 3. Licença: CC BY 4.0.
O marco mais útil fica na coxa proximal-média. Em eixo curto, o nervo ciático aparece no centro de uma estrela ecogênica de três pontas — o sinal da Mercedes-Benz —, com o tendão conjunto numa ponta, o semitendíneo medial e o bíceps lateral [5][25].

Figura 10. Coxa proximal-média em eixo curto: o nervo ciático no centro da estrela ecogênica de três pontas (sinal da Mercedes-Benz), com o tendão conjunto, o semitendíneo, o bíceps e a membrana do semimembranoso.
Fonte: Balius et al., Skeletal Radiology, 2019, Fig. 5. Licença: CC BY 4.0.
No laudo de ultrassom, registre o que foi examinado, o lado comparado e se houve avaliação dinâmica. Sem isso, um exame negativo não quer dizer muita coisa.
Ressonância: o protocolo que funciona
R1–R2
O que a ressonância precisa ter para responder à pergunta do clube? A base é sempre a mesma: uma sequência sensível a líquido com supressão de gordura — STIR, T2 ou DP com saturação — e uma sequência T1 [2][9][15]. A sequência sensível a líquido mostra edema, ruptura e hematoma; o T1 mostra hemorragia subaguda, cicatriz antiga, atrofia e infiltração gordurosa [3][15]. Contraste não é necessário no trauma agudo [2][9].
Os detalhes técnicos importam mais aqui do que em outras regiões, porque o que decide o prognóstico é uma estrutura fina de conjuntivo. Os artigos recomendam campo de 1,5 T otimizado ou 3 T, bobina de superfície, cortes finos (menos de 4 mm) e campo de visão pequeno (menos de 30 × 30 cm) [3][16]. Um marcador na pele no ponto de dor máxima orienta o exame [3][12][15].
Os planos seguem a orientação do músculo. O axial dá a área de secção transversa e a anatomia; coronal e sagital dão a extensão longitudinal e o envolvimento do tendão [12]. Coronal serve melhor para lesões mediais e laterais; sagital, para anteriores e posteriores [16]. O exame deve incluir a inserção mais próxima da lesão, que define se ela é proximal ou distal [12].
Há duas escolas quanto à extensão do exame. Uma examina só o segmento acometido, unilateral, com alta resolução; outra faz um axial bilateral de campo amplo para achar dor referida ou edema sutil [15]. O consenso de Londres não atingiu acordo sobre a comparação lado a lado [4].
No laudo, cite a técnica o suficiente para o leitor saber o que o exame consegue ver: plano, sequências e se o membro contralateral foi incluído.
Quando fazer o exame
R2
A lesão foi ontem à noite. Faço o ultrassom agora, ou espero? O tempo muda o que cada método mostra, e as fontes não dizem a mesma coisa — veja a Figura antes do texto.

Figura 11. Janelas de tempo para ultrassom e ressonância após a lesão, segundo as fontes da base; as recomendações divergem (ver ‘Onde a base diverge’).
Fonte: esquema original a partir de Allen & Jacobson 2021, Palermi et al. 2025, Paton et al. 2023, Pollock et al. 2014, Mueller-Wohlfahrt et al. 2013 e Kassarjian & Lee 2026. Licença: original.
No ultrassom, o problema é o sangue fresco. Nas primeiras horas, a hemorragia é ecogênica e se confunde com as interfaces fibroadiposas do músculo [8]. Um exame com menos de 2 horas pode subestimar a lesão [13], e um exame nas primeiras 24 horas pode ser falso-negativo [15]. Por isso o ultrassom “à beira do campo” é impreciso [8]. Palermi e colaboradores situam a janela ideal em 48 a 72 horas, quando o hematoma já se liquefez [13].
Na ressonância, a recomendação mais citada é 24 a 48 horas após a lesão [4][12]. Mas há quem defenda fazer o mais cedo possível, idealmente em horas, antes que o sangue acumulado esconda o conjuntivo [3]. E há quem diga que depois de 24 horas a ressonância superestima a extensão da lesão, porque o edema se espalha à distância [8].
Em comum, todos concordam que a lesão muito recente e muito pequena pode parecer quase normal, e que um exame negativo cedo, com clínica forte, merece reavaliação [15][16].
Na leitura do questionário/história do paciente, anote sempre o intervalo entre lesão e exame. Ele muda a interpretação do edema e do hematoma.
Os padrões de lesão na ressonância
R2
Como separar, na imagem, edema de ruptura? Isern-Kebschull e colaboradores organizam os achados pelo tecido lesado, e o esquema deles é o melhor mapa mental para começar [3].

Figura 12. Padrões de lesão aguda na ressonância, por tecido: tendão (a1–a3), junção mioconjuntiva periférica (b1–b3), junção mioconjuntiva central ou septal (c1–c3) e fibras musculares (d1–d3), do menos ao mais grave.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 4. Licença: CC BY 4.0.
Leia a figura de cima para baixo. No tendão, a gravidade vai do alongamento (sinal levemente aumentado, halo peritendíneo sutil) à ruptura parcial e à ruptura completa, com gap de líquido e perda de continuidade [3]. Na junção mioconjuntiva, o achado típico é o edema intersticial “em pena” (feathery), que disseca o espaço entre as fibras; ele pode vir sem ruptura, com gap de fibras ou com perda de tensão do conjuntivo [3]. Nas fibras, a gravidade vai da distorção arquitetural — fibras mal definidas — à ruptura franca, com gap e perda do ângulo de penação [3].
Três sinais merecem ser decorados. O edema em pena marca a interface lesada. A perda de tensão — o tendão intramuscular frouxo ou ondulado (wavy) — indica ruptura de fibras daquele tendão [9]. O hematoma intramuscular indica ruptura macroscópica de fibras [9].
O lugar do edema diz qual interface rompeu. Edema periférico aponta lesão miofascial; edema centrado na junção miotendínea principal aponta lesão dela; edema central no ventre, paralelo ao tendão intramuscular, aponta a junção miotendínea central [9]. A Figura mostra as três no reto femoral.

Figura 13. Lesões do reto femoral nas três localizações: miofascial periférica (a, b), junção miotendínea central em torno do tendão intramuscular (c, d) e junção miotendínea principal com ruptura completa e hematoma (e, f).
Fonte: Teh & Rubin, IDKD Springer, 2026, Fig. 16.2. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
Um achado que não deve assustar: líquido intermuscular é muito frequente e não tem, por si, valor prognóstico demonstrado [3][20].
No laudo, descreva nesta ordem: estrutura de conjuntivo envolvida, presença de gap mensurável, perda de tensão, e só depois edema e hematoma.
Do grau 0 ao grau 3: a graduação que todo mundo entende
R2
Antes das classificações modernas, o que se usava — e ainda se usa? A escala em três ou quatro graus, derivada do ultrassom de Peetrons e adaptada à ressonância, é o sistema de ressonância mais comum [2]. Ela é simples e confiável, mas diz pouco sobre comprimento, localização e tendão [10].
Na versão de ressonância, grau 0 é o exame normal [2][15]. Grau 1 é edema, hipersinal “em pena” sem ruptura de fibras [2]. A Figura mostra um grau 1 no reto femoral.

Figura 14. Lesão grau 1 do reto femoral: STIR coronal (a) e axial (b) com edema em pena, sem descontinuidade de fibras.
Fonte: Thierfelder et al., Insights into Imaging, 2019, Fig. 2. Licença: CC BY 4.0.
Grau 2 é a ruptura parcial, e aqui cabe muita coisa: de pequenas descontinuidades a rupturas subtotais [2]. As duas figuras seguintes mostram as pontas desse espectro — um grau 2 leve e outro grave, com ruptura de mais de 20 cm no reto femoral.

Figura 15. Lesão grau 2 leve: STIR coronal com ruptura parcial do reto femoral, edema e hematoma.
Fonte: Thierfelder et al., Insights into Imaging, 2019, Fig. 3. Licença: CC BY 4.0.

Figura 16. Lesão grau 2 grave: T2 com saturação de gordura sagital com ruptura subtotal de mais de 20 cm e hematoma no reto femoral.
Fonte: Thierfelder et al., Insights into Imaging, 2019, Fig. 4. Licença: CC BY 4.0.
Grau 3 é a ruptura completa; a retração deve ser medida e relatada, porque pode indicar cirurgia [2].

Figura 17. Lesão grau 3 dos isquiotibiais: DP com saturação de gordura axial (a), coronal (b) e T2 sagital (c).
Fonte: Thierfelder et al., Insights into Imaging, 2019, Fig. 5. Licença: CC BY 4.0.
A amplitude do grau 2 é a maior fraqueza do sistema: ele junta lesões com evoluções muito diferentes, e não avalia o tendão intramuscular [2]. Na prática, Heiss e colaboradores lembram que o objetivo principal é separar lesão sem ruptura de fibras (recuperação em uma a duas semanas) de lesão com ruptura e hematoma (várias semanas) [15].
No laudo, se usar esta escala, diga explicitamente se há ruptura de fibras e meça a retração no grau 3. O número sozinho não basta.
O hematoma no ultrassom
R2
Por que o mesmo hematoma parece tão diferente em dois exames? Porque o sangue muda. Na fase aguda, até cerca de 48 horas, o hematoma é hiperecoico e mal definido; entre 48 e 72 horas ele se liquefaz e fica anecoico ou hipoecoico; depois aparecem debris e fragmentos de coágulo, e pode restar uma cicatriz focal [13][21]. A maioria dos hematomas intramusculares resolve em 6 a 8 semanas [13].

Figura 18. Evolução do aspecto ultrassonográfico do hematoma muscular ao longo do tempo.
Fonte: esquema original a partir de Palermi et al., Br J Sports Med, 2025, e Paoletta et al., Medicina, 2021. Licença: original.
Na fase subaguda, o hematoma fica fácil de ver e medir. A Figura mostra uma ruptura grau 2 do glúteo médio, com interrupção de fibras e hematoma hipoecoico.

Figura 19. Lesão grau 2 do glúteo médio no ultrassom: interrupção de fibras com hematoma hipoecoico local.
Fonte: Paoletta et al., Medicina, 2021, Figure 3. Licença: CC BY 4.0.
Dois sinais ajudam na lesão de alto grau. O gap entre os cotos, preenchido por hematoma, e o sinal do badalo de sino (bell clapper) — o ventre retraído “balançando” dentro da cavidade do hematoma [13][21]. Ao Doppler, a hiperemia ao redor do hematoma corresponde a tecido de granulação, o início do reparo [13][21].
Na ressonância, a idade do hematoma também pode ser estimada pelos produtos de degradação do sangue: a meta-hemoglobina encurta o T1 e a hemossiderina encurta o T2 [13].
No laudo, dê as três medidas do hematoma e diga se ele está liquefeito. Essa informação decide se uma aspiração é possível.
O que parece lesão e não é
R2–R3
Todo hipersinal muscular depois de esforço é lesão? Não, e confundir custa semanas ao atleta. O resumo descreve três simuladores.
O primeiro é a dor muscular de início tardio (DOMS). Ela aparece um a dois dias após esforço não habitual, frequentemente excêntrico, e melhora em cerca de uma semana [2][18]. Na ressonância pode haver edema difuso, às vezes semelhante ao grau 1 [2], ou um padrão mais difuso e mal definido que Isern-Kebschull chama de “algodonoso” (cotton-like) [3]. O exame também pode ser normal [6].
O segundo é o edema pós-exercício, que surge no atleta sem sintomas depois do treino e resolve em horas [2][3].
O terceiro é mais recente e tem nome: ERSA (exercise-related signal abnormality). Kho e colaboradores o encontraram em 10,8% de 287 ressonâncias de jogadores profissionais com suspeita de lesão aguda da coxa [6]. É um aumento tênue de sinal, em ovoide ao redor do tendão (tipo A), em anel logo abaixo da fáscia (tipo B) ou ambos (tipo C) [6].

Figura 20. Os três tipos de ERSA no plano axial: A, região ovoide peritendínea; B, anel subfascial; C, ambos. Sombreado = aumento tênue de sinal.
Fonte: Kho et al., Skeletal Radiology, 2022, Fig. 1. Licença: CC BY 4.0.
O que torna a ERSA perigosa é o comprimento: em média 15,8 cm, chegando a 27 cm [6]. Pela BAMIC, qualquer hipersinal com mais de 15 cm já puxa a lesão para grau 3 [12]. Mas a ERSA não tem edema em pena, ruptura de fibras, distorção arquitetural nem envolvimento tendíneo, e resolve rápido — em um caso, em 19 dias [6]. Compare na Figura abaixo uma ERSA com uma lesão aguda do mesmo comprimento.

Figura 21. DP com saturação de gordura coronal: ERSA tipo A no reto femoral (a) comparada a lesão aguda do reto femoral de mesmo comprimento, mas com edema em pena (b).
Fonte: Kho et al., Skeletal Radiology, 2022, Fig. 5. Licença: CC BY 4.0.
Em 67,7% dos casos havia uma lesão BAMIC verdadeira em outro músculo, e foi ela, não a ERSA, que guiou a reabilitação [6]. O significado clínico da ERSA isolada ainda é desconhecido [6].
No laudo, descreva o sinal tênue longo como achado separado da lesão e não o use para graduar. Um grau 3 atribuído a uma ERSA pode tirar um atleta de campo sem motivo.
Complicações que você precisa reconhecer
R2–R3
Uma lesão muscular pode deixar mais do que cicatriz? Sim, e algumas complicações mudam a conduta. Este resumo descreve seis.
A miosite ossificante — melhor chamada ossificação heterotópica, porque não é inflamatória [2] — é a mais importante, porque simula tumor. Na fase precoce, a ressonância mostra massa intramuscular com hipersinal e realce; após cerca de 6 semanas surge um anel periférico de ossificação que progride para o centro [2]. A radiografia mostra a ossificação periférica com centro lucente entre 2 e 6 semanas; ultrassom e tomografia a detectam antes [9][21]. A ossificação periférica — o “fenômeno zonal” — ajuda a separar a miosite do osteossarcoma extraesquelético, que ossifica do centro [9].

Figura 22. Miosite ossificante no deltoide: DP com saturação de gordura axial na fase aguda, com massa heterogênea de alto sinal e anel central de baixo sinal (mineralização) (a); ultrassom com mineralização em anel e sombra acústica na fase de maturação (b); radiografia com mineralização periférica bem delimitada em torno de centro lucente (c).
Fonte: Teh & Rubin, IDKD Springer, 2026, Fig. 16.10. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
A regra prática de Teh e Rubin: diante da imagem típica, procure a mineralização periférica com ultrassom, tomografia ou radiografia de controle curto, em vez de biopsiar de imediato [9]. A histologia pode ser confundida com osteossarcoma [9].
A lesão de Morel-Lavallée é um desenluvamento fechado: forças de cisalhamento separam o subcutâneo da fáscia, e o espaço se enche de líquido hemolinfático [2][13]. É mais comum na região peritrocantérica e na coxa proximal [13].

Figura 23. Lesão de Morel-Lavallée da coxa distal: DP com saturação de gordura e T1 coronais e axiais com coleção entre o subcutâneo e a fáscia.
Fonte: Thierfelder et al., Insights into Imaging, 2019, Fig. 12. Licença: CC BY 4.0.
A hérnia muscular é a protrusão do músculo por um defeito da fáscia após trauma [2][21]. O tibial anterior é o mais acometido [21]. Como aumenta com a atividade e pode sumir em repouso, exige ultrassom dinâmico ou em pé [2][15].
A síndrome compartimental aguda é emergência cirúrgica, com dor desproporcional [2]; a imagem não deve atrasar a cirurgia [1]. A forma crônica por esforço mostra aumento de sinal durante o exercício e retorno lento ao normal [2].
A trombose venosa profunda ocorre em até 10% das lesões da panturrilha, e o ultrassom é o exame de primeira linha [13].
Por fim, a cicatriz e a recidiva. A cicatriz estabelecida é hiperecoica no ultrassom e fica hipointensa em todas as sequências na ressonância [8][9]. Uma nova lesão aparece como área hipoecoica junto à cicatriz antiga, com vascularização [8][13].

Figura 24. Lesão grau 2 do vasto medial no ultrassom, com tecido cicatricial hiperecoico.
Fonte: Paoletta et al., Medicina, 2021, Figure 4. Licença: CC BY 4.0.
No laudo, uma massa intramuscular em atleta com história de trauma recente pede a menção explícita de miosite ossificante no diferencial, e a sugestão de controle — não de biópsia imediata.
O laudo que o clube precisa
R3
O que um bom laudo de lesão muscular responde? Os artigos convergem numa lista, e ela segue a ordem de importância prognóstica [3][13][15].
Comece pela localização: o músculo específico, a porção (proximal, média ou distal) e a estrutura de conjuntivo envolvida [3][13]. Para os isquiotibiais, a BAMIC define terço proximal como acima da borda inferior do glúteo máximo e terço distal como abaixo da origem da cabeça curta do bíceps [12].
Depois, descreva os sinais em ordem decrescente de peso. Primeiro o tendão: gap mensurável, retração, perda de tensão. Depois a junção mioconjuntiva: perda do ângulo de penação, gap de fibras, edema intersticial. Depois aponeurose e fáscia. Por último, edema muscular isolado, hematoma e líquido intermuscular [3].
Então meça: extensão craniocaudal, porcentagem da área de secção transversa e comprimento da ruptura de fibras — os três eixos da BAMIC [12]. Registre o intervalo desde a lesão e compare com exames prévios, que podem mostrar cicatriz antiga [3].
Uma frase-modelo, adaptável: “Lesão da junção miotendínea proximal da cabeça longa do bíceps femoral direito, com edema em pena em 30% da área de secção transversa e extensão craniocaudal de 9 cm; sem gap de fibras mensurável; tendão intramuscular íntegro, sem perda de tensão.”
Por fim, contenha a vontade de prever o retorno com precisão. Como a Parte 2 vai mostrar, a imagem estima faixas, não datas [4][15][17].
Parte 2 — Aprofundando (R4 e radiologista MSK)
Três classificações e o que cada uma pergunta
R4 · especialista
Por que existem tantas classificações, e qual usar? Porque cada uma nasceu para responder a uma pergunta diferente. Os sistemas evoluíram de sinais clínicos para a combinação de imagem, tipo de tecido e mecanismo [4]. Três dominam hoje: o consenso de Munique (2013), a BAMIC (2014) e a FC Barcelona-Aspetar-Duke (2017) [3]. A matriz abaixo resume a comparação feita por Isern-Kebschull e colaboradores [3], com os critérios originais de Munique [18] e da BAMIC [12].

Figura 25. Comparação das três classificações modernas quanto ao que cada uma registra.
Fonte: esquema original a partir de Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Mueller-Wohlfahrt et al., 2013, e Pollock et al., 2014. Licença: original.
Munique é, antes de tudo, uma proposta de terminologia. Ela separa lesão indireta de direta e divide a indireta em distúrbios funcionais — sem ruptura macroscópica na ressonância ou no ultrassom — e lesões estruturais, com ruptura [18]. Os funcionais são o tipo 1 (1A, fadiga; 1B, DOMS) e o tipo 2 (2A, neuromuscular relacionado à coluna; 2B, relacionado ao músculo). Os estruturais são 3A (ruptura parcial menor, menor que um fascículo), 3B (parcial moderada, maior que um fascículo) e 4 (subtotal, total ou avulsão tendínea) [18]. O ponto de corte entre 3A e 3B é o feixe secundário, de 2 a 5 mm, visível e palpável quando roto [18].
Munique tem duas contribuições que ficaram. A primeira é chamar atenção para a lesão “negativa” na ressonância: no estudo UEFA citado pelo consenso, 70% das lesões não tinham sinal de ruptura de fibras, mas respondiam por mais da metade das ausências [18]. A segunda é o tipo 2A, que lembra que doença lombar pode simular lesão de isquiotibiais ou panturrilha [18]. A crítica veio da própria BAMIC: muitos distúrbios chamados “funcionais” provavelmente são estruturais abaixo da resolução da imagem, e Munique ignora local, comprimento, tendão e área de secção transversa [12].
A BAMIC foi desenhada para ser medida. O número (0 a 4) vem de três eixos na ressonância: porcentagem da área de secção transversa com hipersinal, extensão craniocaudal do hipersinal e comprimento da ruptura arquitetural de fibras [12]. A letra diz onde a lesão está: a miofascial, b no ventre ou na junção miotendínea, c estendendo-se ao tendão [12].

Figura 26. Limiares da BAMIC para os graus 1 a 3 nos três eixos de medida, com os graus 0 e 4 e os sufixos de localização.
Fonte: esquema original a partir de Pollock et al., Br J Sports Med, 2014. Licença: original.
Alguns detalhes da BAMIC original se perdem nas reproduções. O grau 0a é a lesão focal com ressonância normal; 0b é a dor generalizada tipo DOMS; “+N” pode ser acrescentado quando se suspeita de componente neural [12]. Não existe 1c: qualquer envolvimento intratendíneo já começa no grau 2 [12]. O 2c é a lesão intratendínea com menos de 5 cm e menos de 50% do diâmetro do tendão; o 3c passa de 5 cm ou de 50% da área do tendão, e pode ter perda de tensão sem defeito completo [12]. Quando os critérios caem em graus diferentes, vale o maior [12]. A Figura mostra exemplos de graus e letras nos isquiotibiais.

Figura 27. Lesões dos isquiotibiais pela BAMIC: avulsão proximal completa em esquiador aquático, 4c (a); lesão miofascial de baixo grau do bíceps, 1a (b); lesão atípica do semimembranoso em instrutora de ioga, 2b (c); lesão extensa da junção miotendínea central distal do bíceps com tendão ondulado, 3c (d).
Fonte: Teh & Rubin, IDKD Springer, 2026, Fig. 16.3. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
A FC Barcelona-Aspetar-Duke (sigla MLG-R) é um código em quatro partes: mecanismo (direto, indireto por sprint ou por alongamento), localização no ventre (proximal, média, distal), grau (0 a 3) e número de recidivas [3][4]. O grau 3 é qualquer gap quantificável entre fibras; o sobrescrito “r” marca envolvimento do tendão com ruptura, retração ou perda de tensão [3][4]. A proposta é dar linguagem comum, não exigir medidas estritas [3].
Qual escolher? No estudo Delphi de Londres sobre isquiotibiais, a BAMIC foi a preferida por 58% dos especialistas na segunda rodada, contra 12% para Munique e 6% para Barcelona [4]. O mesmo consenso recomenda que qualquer sistema nomeie o músculo individual, registre o mecanismo e separe tendão livre de tendão central [4]. Nenhuma das três contempla avulsão apofisária [3], e nenhuma considera o nervo ciático [10].
No laudo, a escolha do sistema é questão de estilo e de combinação com o clube; o que não é opcional é descrever os elementos que o sistema usa [9].
Opinião do professor: Não use uma determinada classificação à não ser que tenha uma combinação com o solicitante. Entenda os pontos importantes das classificações e descreva os achados baseado nas mesmas. O grau de detalhamento vai depender de cada serviço ou escolha individual.
O tendão intramuscular e a perda de tensão
R4 · especialista
Se só pudesse olhar uma coisa, o que olhar? A resposta dos artigos é quase unânime: o tecido conjuntivo espesso, e especialmente o tendão intramuscular. Em todas as classificações, o envolvimento do tendão, sobretudo com retração, é o pior sinal prognóstico [3]. Lesões c da BAMIC tiveram retorno mais longo e mais recidiva [4][10][12]. A Figura mostra uma ruptura do componente intramuscular do tendão.

Figura 28. Ruptura do componente intramuscular do tendão do adutor e do semitendíneo: T2 com saturação de gordura axial (a) e STIR coronal (b).
Fonte: Thierfelder et al., Insights into Imaging, 2019, Fig. 6. Licença: CC BY 4.0.
A perda de tensão é o sinal que separa o tendão estirado do tendão roto. O tendão perde as margens retilíneas e fica ondulado [3][9][12]. Um detalhe de leitura: um tendão com cicatriz prévia pode não ondular mesmo roto, porque a cicatriz o deixa mais rígido e ancorado [3].

Figura 29. Tendão da cabeça longa do bíceps femoral: ruptura parcial mista longitudinal sem perda de tensão (a) e ruptura completa com tendão ondulado, sinal de perda de tensão (b).
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 9. Licença: CC BY 4.0.
A magnitude desse efeito, porém, é o ponto mais disputado nesta revisão. Heiss e colaboradores reúnem os números. No futebol australiano e no rugby league, rupturas do tendão intramuscular do bíceps tiveram retorno mediano de 72 dias contra 21 dias com tendão íntegro; no atletismo, lesões 3c levaram mediana de 84 dias [15]. No futebol profissional, os dados não se repetiram: no único estudo prospectivo multivariado, ruptura de espessura total do tendão intramuscular e ondulação acrescentaram só cerca de uma semana ao retorno [15]. A conclusão deles: menos de 50 lesões, estudos retrospectivos e resultados conflitantes [15].
Há também a distinção entre tendão livre e tendão central. O tendão livre é a porção do tendão fora do ventre muscular — no bíceps, cerca de 5 cm entre a origem e as primeiras fibras [5][20]. O consenso de Londres pede que as classificações separem os dois, porque o prognóstico e a indicação cirúrgica diferem [4]. Tratar sem cirurgia uma lesão do tendão livre proximal pode causar morbidade significativa [4].
No laudo, diga sempre se o tendão intramuscular está íntegro, se há gap, qual a porcentagem da área do tendão acometida e se há perda de tensão. E diferencie tendão livre de tendão central.
Isquiotibiais em detalhe
R4 · especialista
Por que os isquiotibiais merecem uma seção própria? Porque são o grupo mais lesado e o mais estudado, e porque a anatomia fina muda o prognóstico de forma que o laudo precisa refletir. A Figura mostra o diagrama anatômico de Balius e colaboradores.

Figura 30. Diagrama expandido dos isquiotibiais: cabeças longa e curta do bíceps, semitendíneo com sua rafe, semimembranoso e tendão do semimembranoso, tendão conjunto e tendão livre.
Fonte: Balius et al., Skeletal Radiology, 2019, Fig. 2. Licença: CC BY 4.0.
Anatomia que o laudo usa. Além da origem pelo tendão conjunto, já vista na Parte 1, três detalhes pesam no laudo. O nervo ciático passa muito perto da origem [20]. O semitendíneo tem uma rafe no quarto proximal do ventre que o divide em duas unidades, e é o único isquiotibial com fibras que chegam diretamente ao osso [5]. A cabeça curta do bíceps, nascida na linha áspera, é o marco que separa lesões proximais de distais [5][12].

Figura 31. Anatomia normal dos isquiotibiais na ressonância: coxa proximal com tuberosidade isquiática, tendão conjunto, semimembranoso e nervo ciático (a); coxa média com cabeça longa do bíceps, semitendíneo e semimembranoso (b); coxa distal com as duas cabeças do bíceps e a junção em T (c).
Fonte: Kassarjian & Lee, IDKD Springer, 2026, Fig. 6.7. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
Dois mecanismos, dois padrões. No sprint, a lesão ocorre no fim da fase de balanço, logo antes do contato do pé, durante alongamento ativo; o alvo é a cabeça longa do bíceps [20]. No alongamento excessivo — quadril fletido com joelho estendido, como em balé, ginástica e esqui aquático — o alvo é o semimembranoso, ao longo do tendão proximal [9][20]. A lesão por alongamento extremo do semimembranoso começa com poucos sintomas, mas a recuperação pode passar de um ano [9].
Bíceps femoral: onde a lesão está importa. Marrero e colaboradores, a partir de Pedret, listam os locais típicos com retorno estimado: tendão livre proximal (8 a 12 semanas), junção miotendínea proximal (8 a 10), junção central com ruptura do tendão conjunto (6 a 8), junção central sem ruptura do tendão conjunto (cerca de 4), junção distal em T (6 a 8) e inserção distal (8 a 12) [20]. A junção em T é a confluência do epimísio das duas cabeças; as lesões dela recidivam com frequência [10][20].

Figura 32. Lesão da junção em T: T2 com saturação de gordura axial com ruptura fascial e edema entre as cabeças longa e curta do bíceps femoral.
Fonte: Kassarjian & Lee, IDKD Springer, 2026, Fig. 6.12. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
A junção miotendínea distal do bíceps tem ainda dois “zíperes”, superficial e profundo, com prognóstico diferente [3]. Lesões do zíper profundo e lesões menos extensas do semimembranoso tiveram retorno relativamente curto, de 3 a 4 semanas, nos casos ilustrados [3].

Figura 33. Lesões mioconjuntivas distais do semimembranoso e dos zíperes profundo e superficial do bíceps femoral em imagens axiais sensíveis a líquido.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 7. Licença: CC BY 4.0.
Semimembranoso. Suas fibras nascem em três regiões: A, da parte medial do tendão proximal; B, das partes medial e lateral; e C, bipenada, da junção mioaponeurótica distal [3][20]. O prognóstico é pior nas regiões B e C [3][20]. A lesão típica fica no tendão livre proximal, em média 2,3 cm distal à tuberosidade [20].
Avulsão proximal e o nervo ciático. Avulsões do semimembranoso ou do tendão conjunto são típicas de esqui aquático, ginástica e atletismo, e frequentemente cirúrgicas [9]. A ressonância detectou avulsões proximais em 100% dos casos, contra 58,3% do ultrassom [4][14]. A Figura mostra uma avulsão completa com retração e o nervo ciático espessado, envolto por edema.

Figura 34. Avulsão proximal completa dos isquiotibiais com retração e nervo ciático espessado, envolto por edema.
Fonte: Kassarjian & Lee, IDKD Springer, 2026, Fig. 6.10. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
O nervo merece frase própria no laudo. Em jogadores de futebol americano, ele estava envolvido em 30,6% das lesões de isquiotibiais e em 81,3% das lesões tendíneas completas [10]. Lin e colaboradores estudaram 32 reparos proximais: o edema de denervação dos isquiotibiais na ressonância pré-operatória foi o achado mais fortemente associado à ciática pós-operatória (OR 13,57) e à dissecção difícil (OR 9,44) [24]. Cicatriz perineural e aprisionamento do nervo ao coto (tethering) também contaram [24].
A decisão cirúrgica usa número de tendões e retração. Na árvore de Allahabadi e colaboradores, lesão de um tendão é conservadora; dois tendões com menos de 2 cm de retração, conservadora; dois tendões com mais de 2 cm em atleta, ou três tendões, vão para reparo [14]. A classificação de Wood separa avulsão óssea, junção miotendínea, avulsão incompleta, completa sem retração e completa com retração — esta subdividida conforme o envolvimento do nervo [14].

Figura 35. Lesões dos tendões proximais dos isquiotibiais: avulsão apofisária da tuberosidade isquiática, ruptura transversa completa do tendão comum, avulsão completa do semimembranoso e ruptura parcial mista do semimembranoso.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 8. Licença: CC BY 4.0.
Ultrassom na origem. Rajvanshi e colaboradores compararam ultrassom e ressonância em 50 pacientes com suspeita de lesão proximal: sensibilidade de 91,2%, especificidade de 81,2% e concordância substancial (kappa 0,724) [25]. O ultrassom mediu bem o comprimento da ruptura, mas não a largura [25]. Os erros vieram de tuberosidade profunda em pacientes musculosos e de anisotropia [25].
No laudo de isquiotibiais, nomeie o músculo e o local exato (tendão livre, junção proximal, central, em T, inserção), diga se o tendão conjunto está íntegro, conte os tendões rotos, meça a retração e descreva o nervo ciático.
Reto femoral
R4 · especialista
Por que o reto femoral engana tanto? Porque o septo central que a Parte 1 apresentou é, na prática, um tendão dentro do ventre, e a aponeurose anterior é a continuação do tendão direto [3]. O que decide o prognóstico é saber qual das três estruturas rompeu — aponeurose anterior, septo central ou fáscia [3].

Figura 36. Lesões proximais do reto femoral: gap do septo central, gap da aponeurose anterior e descontinuidade da fáscia anterior.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 5. Licença: CC BY 4.0.
Nos casos ilustrados por Isern-Kebschull, lesões do septo central e da aponeurose anterior levaram 6 a 7 semanas para o retorno, contra 2 a 3 semanas para a lesão da fáscia anterior [3]. Heiss e colaboradores citam retorno médio de cerca de 4 semanas com lesão do tendão central, contra menos de 10 dias sem ela [15]. As lesões periféricas curam mais rápido que as centrais, ao menos no reto femoral [9].
Há um padrão próprio que não cabe nas classificações: o “desenluvamento” (degloving). O núcleo central — cabeça indireta e tendão central — se separa do ventre ao redor por um cone de líquido, e o ventre interno pode retrair proximalmente [9]. As lesões de delaminação não se encaixam bem em nenhum sistema [9].
As lesões intramusculares isoladas formam um espectro em torno do septo central. Na mais leve, o septo fica preservado, com edema e gap paraseptais; depois vêm edema, distorção e rupturas ao redor do septo sem retração; na mais grave, o padrão é circunferencial, envolvendo todo o septo, com perda de tensão [3]. Compare os três na Figura.

Figura 37. Lesões intramusculares isoladas do reto femoral: edema paraseptal com septo preservado, rupturas ao redor do septo sem retração e padrão circunferencial com perda de tensão.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 10. Licença: CC BY 4.0.
No ultrassom, o tendão central aparece como uma vírgula ecogênica no transversal e é referência confiável; lesão dele acima do cruzamento do sartório com o reto prediz retorno prolongado [13].
No laudo, diga qual estrutura de conjuntivo está envolvida e se o septo central tem gap ou perda de tensão.
Adutores
R4 · especialista
O que é diferente nos adutores? A anatomia da sínfise. O adutor longo, o mais lesado, nasce no púbis e se funde à inserção do reto abdominal, formando com o ligamento púbico anterior o complexo aponeurótico pré-púbico [10][11].

Figura 38. Anatomia da sínfise púbica: reto abdominal, piramidal, complexo aponeurótico pré-púbico, adutores longo e curto, pectíneo e fibrocartilagem.
Fonte: Kassarjian & Lee, IDKD Springer, 2026, Fig. 6.1. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
A revisão sistemática de Farrell e colaboradores reuniu 30 estudos e 594 pacientes [11]. Nos estudos de ressonância, 92% das lesões estavam no adutor longo [11]. As lesões se distribuíram entre inserção tendínea proximal, junção miotendínea proximal e junção miotendínea distal; ruptura completa ocorreu em 21% a 25% [11]. A ressonância foi negativa em 17% a 22% dos pacientes com diagnóstico clínico [11]. Uma armadilha técnica: perto dos vasos femorais, o reforço acústico posterior dificulta o ultrassom, e a ressonância é preferível [11].

Figura 39. DP com saturação de gordura axial: ruptura com retração distal do tendão do adutor longo, sobre tendinopatia.
Fonte: Kassarjian & Lee, IDKD Springer, 2026, Fig. 6.5. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
Três achados de ressonância pesam no prognóstico. Lesão na junção osso-tendão foi o preditor mais importante de retorno mais longo [11][15]. Alterações degenerativas da sínfise estavam presentes em 75% dos pacientes com lesão aguda do adutor longo e atrasaram o retorno [11]. O sinal da fenda secundária indica lesão do tendão do adutor ou do grácil [10].
Os números de retorno variam com o grau. Em lesões parciais, o retorno foi de 1 a 6,9 semanas [11]. Na avulsão completa, o tratamento conservador levou em média 8,9 semanas e o cirúrgico 14,2 semanas, mas os operados tinham mais retração [11].
No laudo, meça a retração do coto, descreva a sínfise e o complexo pré-púbico e diga se a lesão está na junção osso-tendão.
Panturrilha
R4 · especialista
Sóleo ou gastrocnêmio? Por muito tempo, a resposta automática foi gastrocnêmio medial. Na série de Prakash e colaboradores, com 114 lesões em ressonância de 3 T, o sóleo respondeu por 69,3%, o gastrocnêmio medial por 27,2% e o lateral por 3,5% [23]. Os autores atribuem a diferença à ressonância, que detecta lesões do sóleo ocultas ao exame clínico [23].
O esquema do sóleo mostrado na Parte 1 é uma simplificação. Prakash descreve aponeuroses anterior e posterior, aponeuroses intramusculares medial e lateral e um tendão intramuscular central, com grande variação entre indivíduos [23]. No gastrocnêmio, a aponeurose anterior se une à aponeurose posterior do sóleo para formar o tendão calcâneo [23].

Figura 40. Lesões do sóleo em imagens axiais sensíveis a líquido: aponeurose posterior, septo central, fascículo medial e fascículo lateral.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 6. Licença: CC BY 4.0.
A proposta de Prakash gradua a lesão pelo tecido conjuntivo, não pelo edema. Grau 0 é edema junto a conjuntivo íntegro, sem descolamento de miofibrilas; grau 1, descolamento de miofibrilas com conjuntivo normal; grau 2, conjuntivo com sinal aumentado, delaminação ou defeito, sem retração; grau 3, retração do conjuntivo, indicando falência [23]. O retorno médio subiu de forma clara com o grau.

Figura 41. Tempo médio até o retorno por grau de lesão do tecido conjuntivo na panturrilha.
Fonte: esquema original a partir de Prakash et al., Br J Sports Med, 2017 (texto). Licença: original.
Os autores defendem que medir edema ou sangramento é impreciso, porque os produtos hemáticos vão além das margens da ruptura [23]. Lesões do septo central e do fascículo medial do sóleo também tiveram retorno mais longo nos casos de Isern-Kebschull [3].
A “tennis leg” é a lesão aguda entre gastrocnêmio medial e sóleo, comum em esportes de raquete [8][9]. O ultrassom a distingue de trombose ou de cisto poplíteo roto nas mãos de quem conhece a anatomia [8].

Figura 42. Tennis leg: hematoma pouco liquefeito entre o gastrocnêmio medial e o sóleo, 5 meses após a lesão (a), e campo estendido mostrando a retração do gastrocnêmio medial em relação ao tendão calcâneo (b).
Fonte: Allen & Jacobson, IDKD Springer, 2021, Fig. 16.13. Licença: CC BY 4.0.
No laudo de panturrilha, identifique qual aponeurose ou tendão intramuscular foi atingido, se há delaminação e se há retração. Descreva também se mais de um músculo está envolvido, o que prolonga a recuperação [9].
A cicatrização vista pela ressonância
R4 · especialista
O que a ressonância mostra entre a lesão e o retorno? Isern-Kebschull e colaboradores revisaram 310 ressonâncias de 128 atletas de um clube de futebol profissional e propuseram fases de cicatrização com aparência própria [16]. A biologia de fundo é a sequência clássica: destruição, reparo e remodelação [16][17].

Figura 43. Fases de cicatrização muscular na ressonância, com o marco de tempo e o sinal característico de cada uma.
Fonte: esquema original a partir de Isern-Kebschull et al., RadioGraphics, 2024 (texto). Licença: original.
Na fase 1 (primeiras 48 horas) predominam os gaps do conjuntivo e o edema em pena [16]. Na fase 2A, a partir do oitavo dia, o gap se enche de cicatriz imatura, com halo intermediário e centro hiperintenso — a lesão “em alvo” [16]. Na fase 2B, entre 3 e 4 semanas, a cicatriz amadurece da periferia para o centro e atinge o maior diâmetro; persistência de cicatriz imatura é o principal sinal a excluir antes de avançar a reabilitação [16]. Nas fases 3A e 3B, a partir de 7 a 10 semanas, a cicatriz fica hipointensa e homogênea em T1 e nas sequências sensíveis a líquido [16]. No estágio final, resta espessamento fusiforme do conjuntivo, sem edema [16].
As imagens seriadas mostram essa sequência na junção miotendínea dos isquiotibiais e no reto femoral.

Figura 44. Evolução da cicatrização na junção miotendínea dos isquiotibiais: 24 horas, 8 dias e 15 dias.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 11. Licença: CC BY 4.0.

Figura 45. Evolução da cicatrização na junção mioconjuntiva central do reto femoral ao longo de 12 semanas.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 12. Licença: CC BY 4.0.
Nem todo edema durante a recuperação é mau sinal. O edema “algodonoso”, difuso e sem distorção, reflete adaptação e é favorável; o edema reparativo leve em torno da cicatriz é normal [3][16]. O edema em pena peritendíneo sugere sobrecarga e pede redução de carga [3][16].

Figura 46. Edema durante a recuperação: em pena peritendíneo, sugestivo de sobrecarga, e algodonoso, sugestivo de adaptação.
Fonte: Isern-Kebschull et al., Insights into Imaging, 2020, Fig. 14. Licença: CC BY 4.0.
Isern-Kebschull listam sinais desfavoráveis, associados a nova lesão quando dois ou mais estão presentes [16][20]:
| Favorável (não associado a recidiva) | Desfavorável |
| Separação longitudinal (split) do conjuntivo | Ruptura transversa ou mista do conjuntivo |
| Edema algodonoso | Cicatriz imatura persistente |
| Edema leve em torno da cicatriz | Edema intermuscular persistente ou que reaparece |
| Perda persistente do ângulo de penação | Edema em pena que progride ou reaparece |
| Perda de tensão persistente do conjuntivo |
Duas advertências. Primeiro, a recuperação funcional precede a normalização do sinal: a maioria dos músculos ainda tem alteração na ressonância no momento do retorno, e normalizar a imagem não é requisito para liberar [3][9]. Segundo, o valor desses sinais ainda depende de estudos maiores e multicêntricos [16].
No laudo de seguimento, diga a fase da cicatriz, o tipo de edema e se algum sinal desfavorável está presente. Em lesões extensas, a cicatriz pode ter áreas em fases diferentes, e as mais imaturas é que devem guiar a decisão [16].
O que a imagem prevê — e o que não prevê
R4 · especialista
Quanto tempo o atleta vai ficar fora? É a pergunta mais feita e a que a imagem responde pior. Os achados de ressonância se associam ao tempo de retorno em grupos, mas não preveem o caso individual [15][17].
Os números mostram o tamanho do problema. Numa coorte de 176 lesões de isquiotibiais, grau e local pela BAMIC explicaram só 7,6% a 11,9% da variação no tempo de retorno; uma lesão 3c tinha 95% de chance de voltar entre 3,9 e 57,5 dias [4]. Em 90 atletas, o volume de edema explicou 8,6% da variação, e somado ao exame físico nenhuma variável de ressonância permaneceu no modelo [15].
Há sinais consistentes, ainda assim. Ressonância negativa se associa a retorno mais curto [4][12][16]. Envolvimento do tendão livre proximal se associa a retorno mais longo, com evidência moderada [16]. Contusões curam mais rápido que estiramentos, e lesões periféricas mais rápido que centrais [9]. A BAMIC tem a correlação mais bem documentada: no estudo de Biglands e colaboradores, o grau BAMIC dado pelo radiologista se correlacionou com o retorno (R = 0,64), e o Peetrons modificado não [7].
A lição para o laudo é de linguagem. Descreva o que aumenta ou reduz o prognóstico, e deixe a data para a equipe, que integra clínica, reabilitação e fatores do atleta [4][17].
Técnicas avançadas: onde estão hoje
R4 · especialista
T2 quantitativo, difusão, elastografia e radiômica já mudam a rotina? Ainda não. Biglands e colaboradores mostraram que T2 e difusividade caem e a anisotropia fracionada sobe com a cicatrização, mas nenhum parâmetro quantitativo previu o retorno melhor que o escore visual BAMIC [7]. Torres-Velázquez e colaboradores usaram radiômica de T2 e difusão em 32 atletas universitários, com bom desempenho num estudo piloto, sem conjunto de teste independente [22].
No ultrassom, a elastografia mostra aumento da rigidez na cicatriz, e lesões de pior prognóstico tendem a ter área de rigidez que vai além da cicatriz vista no modo B [21]. Ultrassom com contraste, elastografia por ondas de cisalhamento, mapeamento T2, difusão e ressonância de sódio e potássio são descritos como ferramentas de pesquisa [2][15].
No laudo, essas técnicas não têm lugar na rotina.
Diferenciais que não são lesão esportiva
R4 · especialista
Edema muscular extenso em quem não tem história de esforço? Pense além do esporte. A revisão traz os principais diferenciais.
A denervação aguda ou subaguda dá hipersinal nas sequências sensíveis a líquido com T1 normal, e o padrão segue o território de um nervo [9]. Na lesão dos isquiotibiais, o edema de denervação é difuso, diferente do padrão irregular da ruptura muscular [24].

Figura 47. Denervação subaguda no território do nervo femoral: T1 (a) e STIR (b), com adutores poupados.
Fonte: Teh & Rubin, IDKD Springer, 2026, Fig. 16.6. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
A mionecrose diabética ocorre em diabéticos de longa data mal controlados, com dor e edema de início súbito sem trauma, geralmente unilateral e no quadríceps [9]. O aspecto se sobrepõe ao da piomiosite, e o contexto clínico é o que sugere o diagnóstico [9].

Figura 48. Mionecrose diabética: STIR coronal com edema no quadríceps.
Fonte: Teh & Rubin, IDKD Springer, 2026, Fig. 16.7. Licença: CC BY-NC-ND 4.0.
A rabdomiólise por esforço dá hipersinal homogêneo em T2, com realce homogêneo (tipo 1 de Lu); o tipo 2, com realce periférico em focos de mionecrose, aparece em síndrome compartimental por imobilização, trauma contuso ou oclusão vascular [1]. Piomiosite e fasciíte necrosante têm coleções, espessamento e líquido fasciais, e a imagem nunca deve atrasar a cirurgia no paciente grave [1][9]. As miopatias inflamatórias têm padrões de distribuição próprios e geralmente bilaterais [9].
No laudo, edema sem história de trauma, bilateral ou que segue um território nervoso pede que você nomeie esses diferenciais em vez de graduar uma “lesão”.
Intervenção guiada por ultrassom
R4 · especialista
Quando drenar um hematoma? As fontes concordam nos candidatos, mas não na evidência. Paoletta e Palermi indicam aspiração em hematomas que não resolvem em cerca de duas semanas, em lesões muito dolorosas ou quando o retorno rápido é prioridade, sempre com líquido confirmado; técnica no plano, agulha de 18 a 20 G, seringa de 10 mL e enfaixamento compressivo depois [13][21].

Figura 49. Drenagem guiada por ultrassom de hematoma grande anecoico, com agulha hiperecoica no plano.
Fonte: Paoletta et al., Medicina, 2021, Figure 5. Licença: CC BY 4.0.
Palermi sugere considerar aspiração se a diástase passar de 1 cm ou o líquido persistir além de 7 a 10 dias [13]. Por outro lado, Edouard e colaboradores não encontraram evidência de benefício da aspiração após contusão [17].
O plasma rico em plaquetas é ainda mais controverso. Uma metanálise de três ensaios não mostrou superioridade nas lesões agudas de isquiotibiais [17], e a revisão dinamarquesa encontrou efeito trivial no retorno e na recidiva [19]. Outros autores o descrevem como opção em atletas de elite, com eficácia em investigação [13].
No laudo, a informação útil para a decisão é objetiva: volume, grau de liquefação e acessibilidade do hematoma.
Onde a revisão diverge
Os pontos abaixo são conflitos reais entre fontes. Nenhum é arbitrado aqui; o peso de cada lado está indicado quando ajuda.
Quando fazer a ressonância. O consenso de Londres e a proposta da BAMIC recomendam 24 a 48 horas [4][12]. Isern-Kebschull defende o mais cedo possível, idealmente em horas, antes que o sangue esconda o conjuntivo [3]. Allen e Jacobson afirmam que, após 24 horas, a ressonância superestima a lesão pela disseminação do edema [8]. Kassarjian e Lee e Marrero apontam as primeiras 24 horas como a janela mais eficaz [10][20].
Quando fazer o ultrassom. Munique e Kassarjian e Lee indicam 2 a 48 horas [10][18]. Palermi indica 48 a 72 horas e alerta que antes de 2 horas o exame subestima [13]. Heiss e Allen e Jacobson alertam para falso-negativo nas primeiras horas [8][15]. Marrero cita grande sensibilidade a partir de 72 horas [20].
O peso do tendão intramuscular. A maior parte da base trata a lesão intratendínea como o pior sinal prognóstico [3][4][10][12][16][20]. Heiss mostra que, no futebol profissional, o efeito foi de cerca de uma semana no único estudo prospectivo multivariado, e que a evidência se apoia em menos de 50 lesões [15].
Valor prognóstico das classificações. A BAMIC se correlacionou com o retorno em vários estudos [7][9][10][11]. Edouard e colaboradores afirmam que nenhum sistema demonstrou estimar o prognóstico com eficácia [17], e Londres mostra que grau e local explicam pouco da variação individual [4]. Uma revisão sistemática citada por Isern-Kebschull e Marrero não encontrou evidência forte de nenhum achado de ressonância como preditor [3][20].
Distúrbio “funcional”. Munique chama de funcionais as lesões sem ruptura macroscópica [18]. A BAMIC considera o termo problemático, porque muitas seriam estruturais abaixo da resolução da imagem [12].
Critério do 2c na BAMIC. O artigo original admite alguma perda de tensão do tendão livre no 2c, desde que o tamanho seja compatível [12]. As tabelas reproduzidas por Heiss e Marrero dizem “sem perda de tensão” [15][20]. Aqui vale o original.
Localização na BAMIC. Isern-Kebschull afirma que só a FC Barcelona inclui a localização no ventre [3]; o artigo da BAMIC propõe o terço proximal, central ou distal como descritor adicional [12].
Cicatriz e recidiva. Teh e Rubin afirmam que a fibrose não parece aumentar o risco de nova lesão no mesmo músculo [9]. Paoletta descreve a área de cicatriz como local de maior risco [21]. Munique aponta a cicatriz imatura como o ponto mais fraco, sendo a madura rígida ou até mais forte que o músculo sadio [18]; Isern-Kebschull 2024 diz que as recidivas ocorrem geralmente no conjuntivo adjacente à cicatriz madura [16].
Seguimento por imagem. Heiss não vê evidência para seguimento de rotina, reservando-o a casos individuais [15]. Isern-Kebschull 2024 recomenda ressonância a cada 15 dias durante a cicatrização no seu contexto de clube [16]. Palermi propõe ultrassom seriado em quatro momentos [13]. Londres não recomenda nenhuma modalidade para monitorar a reabilitação ou decidir o retorno [4].
Gap na lesão do adutor. Serner não encontrou influência do tamanho da retração no resultado conservador; Pezzotta considera o gap acima de 2 cm fator prognóstico negativo — ambos segundo a revisão de Farrell [11].
Cirurgia na avulsão proximal dos isquiotibiais. Edouard afirma que mesmo avulsões proximais podem evoluir de forma semelhante com tratamento conservador [17]. Allahabadi afirma que a cirurgia ainda supera o conservador e que até 40% dos tratados sem cirurgia acabam operados [14].
Aspiração de hematoma e plasma rico em plaquetas. Ver a seção de intervenção: indicação seletiva para uns [13][21], sem evidência de benefício para outros [17][19].
Frequência de sóleo e gastrocnêmio. Prakash encontrou predomínio do sóleo [23], em contraste com relatos anteriores de predomínio do gastrocnêmio medial, que os próprios autores citam [23].
Comprimento do tendão proximal do semimembranoso. Balius dá 9,4 ± 2,6 cm [5]; Marrero dá cerca de 30 cm [20]. A diferença pode ser de definição (tendão livre versus tendão até o terço médio), mas nenhum dos dois esclarece.
Pontos-chave
- A lesão indireta rompe nas interfaces entre fibra e conjuntivo: junção miofascial, junção miotendínea principal e junção miotendínea central [3][9].
- O tecido conjuntivo espesso envolvido — sobretudo o tendão intramuscular com gap, retração ou perda de tensão — é o principal sinal de pior prognóstico em todas as classificações [3], embora a magnitude do efeito varie entre esportes [15].
- O ultrassom subestima nas primeiras horas; a janela ideal fica entre 48 e 72 horas [8][13]. A ressonância é recomendada entre 24 e 48 horas, com divergência sobre fazê-la antes [3][4][12].
- A BAMIC gradua por três medidas (área de secção, extensão craniocaudal, ruptura de fibras) e localiza por letra (a, b, c); é a classificação preferida pelos especialistas em isquiotibiais [4][12].
- Hipersinal longo e tênue sem edema em pena pode ser ERSA, não lesão grau 3 [6].
- A cicatriz amadurece da periferia para o centro; cicatriz imatura persistente e edema em pena ou intermuscular que reaparece são sinais de alerta [16].
- A imagem não normaliza no momento do retorno e não prevê o prazo individual; ela informa faixas e fatores de risco [4][9][15][17].
- Em lesões proximais dos isquiotibiais, descreva o nervo ciático: edema de denervação e cicatriz perineural se associam à ciática pós-operatória [24].
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